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1.
Eis que se encontram num cruzamento: uma ambulância, em sirenes exorbitantes,
levando, atropelada, dona Agripina Vitória de 61 anos, vinda do interior. Em oposta
avenida, o comboio das polícias federal e local, escoltando a seleção campeã do
mundo, vinda da Espanha, para a copa das confederações na capital
pernambucana.
2
Uma chuva torrencial parecia aguardar o tal encontro. Quando o sinal abriu, os veículos
quase se encontraram, não fosse a Companhia de Trânsito e Transporte Urbano,
representada por inúmeros funcionários. A mesma Companhia articulou as vias
públicas para receberem os reis do futebol, mas não esperava o desespero
daquelas sirenes, ouvidas até pelos anjos que, em vão, tentavam abrir caminho
para Agripina Vitória, rumo ao HR.
3.
As sinalizações das polícias confundiam-se com a dos agentes de trânsito. Era
visível o interesse de pedestres e motoristas em prol da Dona Ambulância.
4.
Dona Agripina Vitória quase fora contemplada com a passagem, mas a chuva, enfim
desabara sobre todos e, rapidamente, ocupara quaisquer espaços. Os carros,
motos, caminhões, bicicletas... Estáticos ficaram como plateia para a tríade:
Agripina Vitória em sua sirenada ambulância; duas polícias como escudo dos
deuses do esporte e a chuva costurando rios, canais e veículos.
5.
Seis horas faltavam para a abertura dos jogos. O hotel com estrelas a perder de
vista esperava ansioso e, com comitiva: vice-presidente, governador, prefeito,
secretário de esportes e muitos intérpretes de espanhol. Não haverá problemas
de hospedagem, nem de comunicação para quem ganha vinte milhões por ano.
6.
Sabendo de tais autoridades impacientes a olhar para o relógio sob as expectativas
do mundo, o capitão federal e o representante da secretaria de trânsito se
entreolharam e, quase por impulso, visaram sutil e simultaneamente a placa da
gritante ambulância, em seguida, abriram as avenidas com vigor para a rubra
seleção.
7.
Fora uma pequena encenação de odisseia. Os briosos jogadores e sua escolta passaram
por chuvas e buracos. Mais à frente, a casa de seu José fora desapropriada para
escoarem lamas e lixos; os ônibus foram proibidos de circularem; as escolas e
até os hospitais tiveram que rever o seu funcionamento; os pedintes, camelôs e
prostitutas foram terminantemente proibidos de atuarem; os pivetes de rua foram
isolados; a companhia de energia elétrica teve que garantir por escrito que seu
serviço, enfim, fosse de qualidade e a polícia – eficiente – cercou todas as entradas
de comunidades vizinhas, impedindo a saída de qualquer morador – de forma a
facilitar a triunfal chegada dos heróis do mundo.
8.
Meia hora depois chega a ambulância de Dona Agripina Vitória ao HR, localizado
a apenas meio quilômetro dali. Desceu o motorista, uma enfermeira de olhos
baixos e ineficazes como se carregassem todo o lamento de uma torcida ao ver a
bola da vitória, no último minuto, triscar a barra. A neta Lucinha de nove anos
chorando como um bezerro abandonado e, por fim, o corpo de Dona Agripina
Vitória a ser embalsamado de volta ao município de Manari, no Sertão
Pernambucano. Mas o país, de olhos vibrantes, logo gritará por gol.
Ivanilson Martins
