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Durante a semana, houve uma notícia destoante, em um
cenário de caos: “A menina que salvava livros”. Rivânia da Silva, oito anos, moradora
de São José da Coroa Grande, um dos Município afetados pelas últimas chuvas, em
Pernambuco, vendo sua casa ser tomada pela água, salvou apenas seus livros. Indagada
do porquê de tal atitude, a brasileirinha respondeu: “porque eles são o meu
futuro”.
A imagem da garota agarrada aos livros escolares veio-nos
como uma representação de humanidade ante tantas outras imagens brutais e
atuais pelo mundo, talvez tenha vindo com a missão de levantar-nos a cabeça e fazer-nos
acreditar novamente num futuro humanizado.
Ser a educação subjetividade, participação e
contexto, nós acabamos apreendendo no decorrer de nossas experiências
cotidianas e teóricas durante a vida, entretanto, emocionar-se por uns poucos
instantes com aquela nota é oportunidade de perceber o quanto a educação também
pode ser algo concreto e palpável. Essa menina, inconscientemente, como
geralmente são as mais celebres e pioneiras aprendizagens, educou-nos. Fosse
ordenado a ela apenas correr em direção ao barco, certamente a Vida seria o único
bem resguardado, mas, em meio às urgências impostas pelo temporal, ouviu da avó:
– traga apenas o essencial!
O crescimento proporcionado pelos bons livros é
incalculável – é um crescimento interior. Eles nos proporcionam uma expansão
cultural e uma compreensão existencial e social indispensáveis para se viver em
harmonia com a natureza, consigo e com a sociedade. Acerca disso, diversos
autores já se manifestaram. Fernando Pessoa disse: a literatura é a maneira
mais agradável de ignorar a vida”. Acrescento: também é a mais agradável de se
comunicar com ela.
Ao projetar-se num futuro, tendo como ferramenta
aqueles livros, Rivânia guiou-se por caminhos amorosos e objetivos, ambos
estimulados pela educação, pela leitura, pelos bons exemplos, certamente vistos
em sua trajetória de estudante; levou-nos a questionar valores e a rever posturas
talhadas em nossas rotinas pouco cidadãs. Cidadania não é apenas parabenizar o
comportamento dessa jovem, mas também, perceber que aquela criança está
argumentando sem palavras em prol de um futuro ameaçado pelo descaso; está
pedindo socorro ao instrumento fundamental em quaisquer desenvolvimentos – a
educação.
Vejo nessa menina uma mensagem sensível e a
direciono aos donos de minha nação: educando o filho do outro, eu educo o meu
próprio filho, educo a mim mesmo, pois naquele barco está todo um Brasil,
aqueles Municípios são a minha casa e o meu quintal – e aqueles livros segurados
com veemência por aquela brasileira são os degraus que o mundo ainda precisa
galgar.
Ivanilson Martins
