sexta-feira, 12 de junho de 2015

Semeando eternidade

Édouard Manet


Segue o caminho de meu olhar.
Descola minha língua do palato.
Escolhe uma curva de meu corpo.
Abre meu peito.
Dá novo formato aos meus cabelos.
Molda meus gestos.
Amplia teus vocábulos no meu silêncio.
Me penetras sem obrigação de permanência.
Segura nosso tempo num orgasmo
E voa pelo quintal com novas asas.
Mas não queiras voltar
– estarei semeando eternidade em outro lugar.


Ivanilson Martins

Noite

Henri Tolouse-Lautrec


Tu que me vens, sombra maldita,
Articulada e Silenciosa. Indiferente.
Vagarosa, como se amaciasse a pele abatida.
Sou Triste, bem o sabes.

Tu que me vens, sombra maldita, Carnívora.
Adestrando Brisa. Cavalgando sonhos à noite escura.
Me exiges a outra face e retiras o véu da minha Mágoa – real e fria, como espada.

Tu que me vens, sombra maldita, numerando Medos. Transformando em nada o meu Nada.
Rindo de rezas, de pescas, de brechas.
Da fadiga sobre meus versos.

Tu que me vens, sombra maldita, Tenebrosa e Sem Piedade, e me levas a cantos covardes.
Apertas meus Ares Melancólicos, como Calos.
Expõe Arroubos, Nervos, Culpas, Estalos.

Maldita. Maldita. Tripudias de minha Sede.
Tu que guardas em ti os fios de uma Rede.

E me embalas enganosa, como a pássaros engaiolados, com teu descaso e teu blefe.

Ivanilson Martins 

terça-feira, 9 de junho de 2015

Quando escrevo um poema

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Quando escrevo um poema habito um corpo em chamas. De meus dedos saem chagas e não tenho pudor em odiar.
Quando escrevo um poema quero o verbo que habita meu espaço anônimo, negro e silencioso.

Ivanilson Martins


segunda-feira, 8 de junho de 2015

Olho-me ao espelho

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Olho-me ao espelho e vejo alguém solto de uma mão taciturna, seguindo pontos de luz – é uma criança.
Olho-me ao espelho e vejo a pele desprender-se de um corpo e espalhar-se no vento. Há um sorriso emergindo dum rosto, lá em cima, compondo um céu todo aberto.
Olho-me ao espelho e vejo, preenchendo a moldura: um velho com cara de jovem; o choro e o riso entrelaçados no ombro, como tatuagem.  
E, na sua morada, uma tristeza na iminência de tornar-se canção.

Ivanilson Martins