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Vida e morte trajavam a mesma indumentária. O
sangue insistente a escorrer pelas pernas manchava o resto que ainda tinha de
alma. A vista embaçada era-lhe uma espécie de escudo, pois ver bem naquele
momento só aumentaria as dores. A vergonha era o que a impedia de gritar por
socorro. Vergonha das roupas rasgadas e cobertas por lama, da maquiagem
esfacelada no rosto, dos hematomas, dos seios mordidos a mostra, do cabelo
desfeito. Teve um lapso de memória ao tocá-los: da festa que ia, do último
telefonema, da passagem das horas. Juntando a vestimenta, agora trapos, cobriu
suas partes não mais íntimas. Em vão procurou a bolsa. Com a visão quase
reconstituída, decalcou paredes até ser coberta por árvores numa mata cada vez
maior. A cada passo sob as luzes dos postes amargava as mãos sobre seu corpo:
duas, quatro, seis mãos macerando os sentidos que não mais respondiam regrados.
Estava esquartejada: corpo, alma, vida e morte seguiam em caminhos opostos e
nenhuma a acompanhava rumo à primeira fresta de rua, de asfalto. E quanto mais
adiantasse o passo revelava-se uma ferida, até que perdeu o senso de humanidade
e, tomada pelas escoriações, acostumou-se ao instante. Estatelada no presente.
Nem mais percebia as lágrimas misturadas em sangue a deixar-lhe os olhos.
Viu
a primeira placa de trânsito e por mais costumeira fosse tal avenida, não era
uma profissional que a cruzava agora. Era o aniquilamento do humano. Arremedo
de fêmea. Sua dama resguardada fora violada, tornara-se do mundo.
Fossem
outras noites: o mercantil contornando o toque não iria além de corpo; o salto
a tornaria maior; a provocante maquiagem, competitiva; a mini-saia, valiosa; o
tope pressionando o busto, cara. Mas, destituída de simetria, não era vista
como mulher – era mais uma passando com as feridas expostas.
Ivanilson Martins
