terça-feira, 26 de novembro de 2013

O bicho


Paulo Henrique da favela da Samambaia nadando no canal do Arruda. (Gloogle imagem)
O bicho, meu deus, era um homem”. Como não relacionar esses versos com a foto tirada do Paulo Henrique e publicada no jornal do comércio: O menino de nove anos aparece esquecido no lixão do canal do Arruda, catando alumínio. Esquecido por diversas esferas da sociedade. O registro do fotógrafo Diego Nigro é mais um exemplo de como, infelizmente, o Brasil tem reproduzido na realidade o espanto do poeta, entretanto, não o suficiente para que haja uma definitiva cessação desse estado de miséria de grande parte da população; para que haja um engajamento realmente eficaz por parte do poder público; para que se cumpra os artigos do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).
Se a lei afirma ter a criança “primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias”, como se explica o abandono das nossas crianças e adolescentes? Qual a explicação para termos chegado a tal ponto na política do salve-se-quem-puder deixando a ermo, incapazes? Encaramos como importante apenas o que está sob nossas asas! Quanto ao resto – no sentido literal dessa palavra – nos comprometemos paulatinamente... Nossa revolta por imagens chocantes e cenas absurdas não é suficiente para nos mover da zona de conforto e agir responsavelmente com o futuro do outro. 
Enquanto Paulo Henrique não ameaçar meu clã, as dependências de minha casa, a educação de meus filhos, enfim, enquanto a degradação na qual vive não prejudicar diretamente meu bem-estar, não há por que torná-lo prioridade para mim, estruturar a escola e posto de saúde dos quais depende e dá-lhe noções de cidadania para que possa discernir atividades de bicho e de gente. 
A população acostumou-se a ter momentos como este: de comoção coletiva; de entusiasmo e empatia com os desfavorecidos, e estes por sua vez, a vestir a carapuça de necessitados, enquanto os muros que separam ricos e pobres nesse país permanecem. Certezas como: cadeia no Brasil é para pobre, a educação pública é uma instituição falida e saúde de qualidade só tem quem pode pagar seguem como argumentos para o ingresso no mundo do tráfico de drogas, explosão de caixas eletrônicos, fraude, prostituição, estelionato etc. Nos apoltronamos no subdesenvolvimento e banalizamos certas realidades encarando-as como fatalidade. Tal imobilismo tem se tornado característica de uma geração e aniquilando a possibilidade de uma postura realmente revolucionária. O garoto da favela da Samambaia é um dos inúmeros retratos terríveis do Brasil. Representa, talvez, o mais sério deles: a criança. 
À margem de uma Proposta de Emenda à Constituição que nos impõe regras por vinte anos, existem muitas lutas inacabadas e o desrespeito à infância é uma das mais urgentes. Para que meninos e meninas não venham a tornar-se “o homem” citado pelo poeta, deve existir uma mudança estrutural, passando pelo legislativo e pela cultura apregoada ao cotidiano do brasileiro do “não-é-comigo”. É preciso conceber-se como sociedade, ou seja, Paulo Henrique é o que sou e não o que me comoveu por uns instantes. Trata-se de restaurar nossa capacidade de interceder e estender a todos os brasileiros o conhecimento de seus direitos e deveres. 
Jaime Pinsky, historiador paulista, assevera que: “ser cidadão é ter direito à vida, à propriedade, à igualdade perante a lei: e, em resumo, ter direitos civis”. É, também, participar no destino da sociedade, ter direitos políticos. Ou seja, ser cidadão nos permite usufruir das facetas que a vida social nos apresenta e afastar “gente” da condição de “bicho”. 

Ivanilson Martins