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| Paulo Henrique da favela da Samambaia nadando no canal do Arruda. (Gloogle imagem) |
“O bicho, meu deus, era um homem”. Como não
relacionar esses versos com a foto tirada do Paulo Henrique e publicada no
jornal do comércio: O menino de nove anos aparece esquecido no lixão do canal
do Arruda, catando alumínio. Esquecido por diversas esferas da sociedade. O
registro do fotógrafo Diego Nigro é mais um exemplo de como, infelizmente, o
Brasil tem reproduzido na realidade o espanto do poeta, entretanto, não o
suficiente para que haja uma definitiva cessação desse estado de miséria de
grande parte da população; para que haja um engajamento realmente eficaz por
parte do poder público; para que se cumpra os artigos do ECA (Estatuto da
Criança e do Adolescente).
Se a lei afirma
ter a criança “primazia de receber proteção e socorro em quaisquer
circunstâncias”, como se explica o abandono das nossas crianças e adolescentes?
Qual a explicação para termos chegado a tal ponto na política do
salve-se-quem-puder deixando a ermo, incapazes? Encaramos como importante
apenas o que está sob nossas asas! Quanto ao resto – no sentido literal dessa
palavra – nos comprometemos paulatinamente... Nossa revolta por imagens
chocantes e cenas absurdas não é suficiente para nos mover da zona de conforto
e agir responsavelmente com o futuro do outro.
Enquanto Paulo
Henrique não ameaçar meu clã, as dependências de minha casa, a educação de meus
filhos, enfim, enquanto a degradação na qual vive não prejudicar diretamente
meu bem-estar, não há por que torná-lo prioridade para mim, estruturar a escola
e posto de saúde dos quais depende e dá-lhe noções de cidadania para que possa
discernir atividades de bicho e de gente.
A população
acostumou-se a ter momentos como este: de comoção coletiva; de entusiasmo e empatia
com os desfavorecidos, e estes por sua vez, a vestir a carapuça de
necessitados, enquanto os muros que separam ricos e pobres nesse país
permanecem. Certezas como: cadeia no Brasil é para pobre, a educação pública é
uma instituição falida e saúde de qualidade só tem quem pode pagar seguem como argumentos
para o ingresso no mundo do tráfico de drogas, explosão de caixas eletrônicos,
fraude, prostituição, estelionato etc. Nos apoltronamos no subdesenvolvimento e
banalizamos certas realidades encarando-as como fatalidade. Tal imobilismo tem
se tornado característica de uma geração e aniquilando a possibilidade de uma
postura realmente revolucionária. O garoto da favela da Samambaia é um dos
inúmeros retratos terríveis do Brasil. Representa, talvez, o mais sério deles:
a criança.
À margem de uma
Proposta de Emenda à Constituição que nos impõe regras por vinte anos, existem
muitas lutas inacabadas e o desrespeito à infância é uma das mais urgentes.
Para que meninos e meninas não venham a tornar-se “o homem” citado pelo poeta,
deve existir uma mudança estrutural, passando pelo legislativo e pela cultura
apregoada ao cotidiano do brasileiro do “não-é-comigo”. É preciso conceber-se
como sociedade, ou seja, Paulo Henrique é o que sou e não o que me comoveu por
uns instantes. Trata-se de restaurar nossa capacidade de interceder e estender
a todos os brasileiros o conhecimento de seus direitos e deveres.
Jaime Pinsky,
historiador paulista, assevera que: “ser cidadão é ter direito à vida, à
propriedade, à igualdade perante a lei: e, em resumo, ter direitos civis”. É,
também, participar no destino da sociedade, ter direitos políticos. Ou seja,
ser cidadão nos permite usufruir das facetas que a vida social nos apresenta e
afastar “gente” da condição de “bicho”.
Ivanilson Martins

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