quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Você já se sentiu um charlatão?


Você já se sentiu um charlatão? Não pergunto aos charlatões! Esses o são plenamente e não há espaço dentro de si para dúvidas filosóficas.
Falo dos cheios de espaços não preenchidos, cheios de dúvidas, cheios de filosofias acerca de tudo, os chamados loucos, otários – falo dos não charlatões de carteirinha.
Tenho me sentido charlatão na minha essência, no meu interior e, consequentemente, nas minhas ações sociais, pois sou um mar de lama após o furacão, com tudo que existia antes, agora, resumido a fragmentos, num único corpo. E aquelas ideias adolescentes de fugir para um lugar melhor, nunca revelado; de plantar uma árvore no quintal; de criar um elefante... tudo parece vir como cartas de cobrança. Os personagens imaginários batem à porta com ânsias de existir.
Mas eu apenas consigo fechar os olhos e me manter como mais um na multidão, na esperança de que as coisas passem, como sempre passaram e me deixem, como sempre me deixaram.  
É a vida paralisada diante de mim, exigindo atitudes comuns aos que me cercam, mas apenas consigo dizer-lhe: vou arriscar outra forma.
E com a costumeira sensação ridícula de ser lesado em tudo, sigo à leve brisa vinda das páginas viradas dos livros.

Ivanilson Martins 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Minha morte poetizada


Quando morri afogado, meu último toque fora no desconhecido. Num beijo agoniado e desconforme, esvaiu-se a minha vida. Com o sal do mar esfoliando a minha pele e o som das ondas se encolhendo nos meus ouvidos, senti uma sombra apagando o sol dentro da minha íris.
Quando morri queimado, meu corpo se desmanchou em líquido, como numa paixão. As pupilas, esturricadas, foram as últimas a se desprenderem da vida. Os ossos, expostos, impuseram sua rigidez, até desabarem como cetros sem pulso. Meus pensamentos fugidios se camuflaram em meio à fumaça, como pássaros livres em meio à miscelânea da natureza.
Quando fui atingido por um raio, de meu corpo nada restou. Um sepulcro se formou no chão. Morri sem direcionar nenhum sorriso, nenhuma súplica. Devo ainda estar vivo procurando algum sentido entre um estado e outro. De peito aberto, vagueando num silêncio absoluto.
Quando morri de amor, o corpo se manteve intacto, ainda esperava um gesto, uma fagulha, uma brisa – algo que se desprendesse do imenso e caísse como fruta madura sobre o tapete fértil de um espírito sobressaltado. Incontáveis portas esperavam tua visita. E quando parecias chegar, abriram-se entusiasmadas. Mas eram espectros, apenas espectros cobiçando uma alma abandonada.

Ivanilson Martins