sábado, 4 de julho de 2015

Signos de fogo



E Áries disse: o tempo não vai mudar! Leão disse: vai mudar! Sagitário disse: se mudar a gente vai, se não mudar a gente fica!
Não foi falta de animação. Eles já saíram de casa encontrando nas arestas do dia sorrisos para preencher a face do cotidiano – Áries, Leão e Sagitário.
Tampouco foi falta de sinceridade. Eles foram se magoando e se refazendo no caminho até a esquina. Não houve opiniões que não tenham sido expostas, com excesso de palavras e braceados. E de pés sobre a calçada, já eram outros, prontos a se contraporem por novos motivos - Áries, Leão e Sagitário.
Muito menos foi por falta de coragem. Armas invencíveis e invisíveis pendulavam nas costas deles. São os mais preparados e destemidos ante quaisquer grãos de areia que ousem cruzar-lhes o caminho - Áries, Leão e Sagitário.
Não há de ter sido também por falta de senso de humor, pois eles têm pelo menos cinquenta por cento do espírito repleto de gargalhadas querendo sair, cutucando suas vestes interiores com agulhas irônicas.
Lógico, por falta de verdade, também não fora, nem de paixão. Esse trio se apaixona por folhas caídas sobre si a cada atravessar de faixa. Segue sendo pedestre no antes, durante e depois dela. É o trio ideal quando se quer fazer trilha nas bifurcações da razão. Ideal quando se quer desestruturar o movimento monótono dos ponteiros do relógio.
Talvez seja a velocidade, pois do início até o fim desse texto, eles já mudaram as ordens de si - Áries, Leão e Sagitário.

Ivanilson Martins


E Chuva...



Meu defeitos me querem sair aos borbotões. Hoje, aqui dentro desta tarde excessivamente chuvosa e, talvez por isso mesmo, solitária.
Grandes são os defeitos que me habitam, e essa vontade de viver tudo agora me faz flutuar de raiva ante o reflexo da chuva.
Ao menos do silêncio estou liberto, os pingos desabotoam minha audição e servem de almofada aos meus desejos.
O vício de jogar na escrita vazios e excessos, até mesmo esse parece sugado pelo Fado saído da vitrola estilizada que me acompanha.


Ivanilson Martins

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Quando o inverno chegar...


Quando o inverno chegar, vai me encontrar dando pra um sábado; chupando toda a seiva bruta de um domingo;
Debruçado sobre o rastro deixado pelo outono
– em direção à suruba dos dias.

Quando o inverno chegar, com suas chuvas espaças e seu clima de panos grossos sobre a pele, vai me encontrar com uma camisa de vênus protegendo o nervo vivo das falanges da melancolia; das garras do silêncio impelindo meu espírito ao cansaço das folhas açoitadas por estacas de água.

E quando o inverno chegar querendo puxar-me versos, vai me encontrar deitado, extático, tentando escutar o vazio do corpo. Vou estar como uma bolha de sabão que guarda uma porção de nada até desaparecer.


Ivanilson Martins

domingo, 28 de junho de 2015

Este do espelho


Google imagem


Olho-me ao espelho e sinto, à duras penas: há mais do lado de lá.
Há uma respiração ofegante;
Há lábios vermelhos;
Há uma estante com livros ao fundo;
Uma porta de saída;
Há uma réstia de brilho se escondendo num fundo de olho;
Há aqueles poemas bobos de infância saltando da memória e franzindo a pele entre as sobrancelhas: “num canto há um canto que canto com encanto”.
Ah, este do espelho é o reflexo do medo que me habita.
O medo de ser livre e sair por aquela porta e não mais voltar.

Ivanilson Martins