quinta-feira, 8 de outubro de 2015

[E ri-se, ouvindo, ao longe, os passos da cuidadora Esmeralda].

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– Pois é, Mel, comecei querendo um homem bonito na adolescência; acrescentei inteligência na juventude; quando adulta, percebi: honestidade também é importante! Na maturidade, bom humor; no casamento, achei estar tudo ajeitado; com a viuvez, voltei à lista; com a velhice, sai cortando itens. Hoje, bastaria ser homem para ganhar aval de entrada.
– Ai, dona Zu, mas isso não é problema somente da idade: eu mesma, há pouco tempo, tinha mania de escolher parceiros pelo pé, quanto mais limpo mais chance tinha comigo; hoje a crise está tão grande que tenho andado com um par de meias na bolsa. Qualquer coisa, digo que é fetiche.  
Ah, querida, se meus vizinhos garanhões aposentados de pornochanchadas não perigassem morrer em cima de mim, faria uma fila de bengalas na minha alcova e deixaria todas as minhas putas saírem. Velhas. Loucas. Livres. Porque eu não morro, não! Não por querer. Vou, mas vou arrastada, Mel. E vou tentando argumentar com a morte, essa dona sem rosto, sem pele, sem cheiro, sem critérios.

Ivanilson Martins