Endureci
rápido. Retive a fibra do primeiro choro. Suguei do peito mais sangue que
leite. Desenvolvi a astúcia dos gafanhotos para desbravar caminhos. Dos lobos
para escapar das águias. Transvasei o aboio torturante da fome e cresci.
Cutuquei o medo com vara curta e, quando ele mostrou a face, mostrei-lhe o
peito endurecido. Não é qualquer palavra que me fere. Minhas chagas não se
traduzem – são versos negros, rompidos num silêncio noturno. Meus relâmpagos
ninguém vê. Sou perfeito pra trilhas árduas. Quando caio não me machuco. Só não
sirvo pra se encostar. Sou cacto rijo. De espinhos prolongados. Armazeno água
no caule.
Ivanilson Martins
