Deus, depois de
anos de serviços prestados ao mundo dos melancólicos; ao mundo dos infelizes e poéticos
viventes, que se desviam das oportunidades para seguirem pássaros; daqueles
mesmos, perdidos entre sons indecifráveis vindos de um imaginário pulsante; dos
que passam horas olhando árvores e se apaixonam por rostos efêmeros no meio de
uma multidão, mais efêmera ainda. Eu quero me aposentar! Não deste espaço
exclusivamente meu, atelier interior onde crio meus labirintos e saio mais
forte das dores que nem sabia: estavam no peito. Continuarei a acolher os
olhares delicados dos cachorros que, volta e meia, abrigam-se na minha sombra –
prometo. Por quê? Eu me abrigo nesses olhares também. Numa espécie de
mutualismo, nos alimentamos da solidão do outro.
Quero aposentadoria,
Deus, das horas vazias de tudo, aquelas cujas garras sangram minha alma até que
saia uma gota de arte. Eu queria ser como aqueles artistas das revistas, cheios
de risos e sem nenhuma conta em atraso, mas sou artista inferior, coberto de
medos e futuros insertos. Eu atravesso a rua sem mãos estendidas do outro lado,
e se me dou uma folga de mim, morro de medo de não levantar-me a tempo de me
dar a mão – eu mesmo – como sempre foi. Há na minha esperança uma doença
degenerativa e, quando ouso me apaixonar por alguém, meto os pés pelas mãos,
pois sou entusiasta como o vento que conduz minhas letras.
Eu quero, quero
sim, quero muito me aposentar dessa incapacidade de me vincular ao mundo de
fora; dessa abstração gotejada como água quente nos olhos; dessa insatisfação em
simplesmente ser.
Deus, quero que
segurem a minha mão com força, e continuem assim, mesmo quando minhas forças
cederem; alguém que compre a briga com minha incompletude e responda quando eu
disser – te amo!
Ivanilson Martins



