quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Eu quero me aposentar!



Deus, depois de anos de serviços prestados ao mundo dos melancólicos; ao mundo dos infelizes e poéticos viventes, que se desviam das oportunidades para seguirem pássaros; daqueles mesmos, perdidos entre sons indecifráveis vindos de um imaginário pulsante; dos que passam horas olhando árvores e se apaixonam por rostos efêmeros no meio de uma multidão, mais efêmera ainda. Eu quero me aposentar! Não deste espaço exclusivamente meu, atelier interior onde crio meus labirintos e saio mais forte das dores que nem sabia: estavam no peito. Continuarei a acolher os olhares delicados dos cachorros que, volta e meia, abrigam-se na minha sombra – prometo. Por quê? Eu me abrigo nesses olhares também. Numa espécie de mutualismo, nos alimentamos da solidão do outro.
Quero aposentadoria, Deus, das horas vazias de tudo, aquelas cujas garras sangram minha alma até que saia uma gota de arte. Eu queria ser como aqueles artistas das revistas, cheios de risos e sem nenhuma conta em atraso, mas sou artista inferior, coberto de medos e futuros insertos. Eu atravesso a rua sem mãos estendidas do outro lado, e se me dou uma folga de mim, morro de medo de não levantar-me a tempo de me dar a mão – eu mesmo – como sempre foi. Há na minha esperança uma doença degenerativa e, quando ouso me apaixonar por alguém, meto os pés pelas mãos, pois sou entusiasta como o vento que conduz minhas letras.  
Eu quero, quero sim, quero muito me aposentar dessa incapacidade de me vincular ao mundo de fora; dessa abstração gotejada como água quente nos olhos; dessa insatisfação em simplesmente ser.
Deus, quero que segurem a minha mão com força, e continuem assim, mesmo quando minhas forças cederem; alguém que compre a briga com minha incompletude e responda quando eu disser – te amo!


Ivanilson Martins 

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