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“A
família é formada por um homem e uma mulher, através do casamento ou da união
estável... e ‘blá blá blá’...”.
Decisão
recente da câmara dos deputados, parte integrante de nosso legislativo, cuja
função é representar o povo, legislar sobre os assuntos de interesse
nacional e fiscalizar a aplicação dos recursos públicos pelo Poder Executivo.
Tal deliberação vai de encontro às atribuições dessa casa ante a nação
brasileira, pois, qual o interesse de se definir o conceito de “família” se a intenção
não for excluir as não encaixadas nesse premissa absurda, para não dizer
religiosa? Cadê a noção de Estado Laico se, gradativamente, estamos sendo
domados por uma política hierática.
Um
conservadorismo velado e uma empatia de araque flutuam sobre nossas cabeças e
de repente desabam, trazendo à tona mazelas antigas: nosso eterno desjeito com
o direito do outro.
Essa
discussão não é bobagem! Posso perder direitos cíveis se não compuser um
quadrado patético na iminência de se tornar lei; posso ter minha cidadania
comprometida, e pior, posso perder uma identidade conquistada.
Quero
mesmo é ver os direitos sociais, infringidos diariamente no cotidiano do
brasileiro, virarem agenda dos nossos [lugar reservado a boa educação]
deputados e senadores; quero ver o ímpeto por mudança ascender das promessas de
campanhas e se tornar realidade, afinal, representar o povo não é um favor que
nos fazem, assim como conceituar família não deveria ser prioridade.
Família
é formada por pessoas! Ser homem ou ser mulher, agir como, atuar como... são
questões flexíveis e questionáveis, por que ir na contramão do progresso, do respeito
e da tolerância às escolhas do outro? Por que ao invés de ampliar a palavra “família”
como fez de forma inteligente o comercial da Vitarella, esses 17 votos contra
cinco querem reduzi-la?
Luto
por agravar o lado positivo do Brasil nas minhas atitudes, por não ratificar
ideias destruidoras e opiniões pessimistas acerca de nossa longa condição de
“país em desenvolvimento”, mas a verdade é que ainda estamos engatinhando em
direção à nossa Revolução Francesa; nossa tríade (liberdade, igualdade e
fraternidade) não se confirmou. A criança preterida pela consciência coletiva
hoje é adulta, entrou na política partidária e governa para os seus – e
seguimos encarando nossas guerras civis como fatalidade.
Mas
acreditar no Brasil não me é uma opção é algo que eu mesmo me imponho, e
componho, sim, a fila dos otários, que embora amordaçados, gritam em silêncio
para acordar a nação; asseclas de uma ética sempre por chegar.
“Reconhecer
um certo número de fatos novos indicativos da emergência de uma nova história.
O primeiro desses fenômenos é a enorme mistura de povos, raças, culturas,
gostos, em todos os continentes”. Santos, Milton. Por uma outra globalização. E
acrescento, Milton, outro fato – o familiar.
Conceituar
família? Tal atitude, para mim, será sempre algo excludente, leviano e
pretensioso.
Ivanilson
Martins

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