quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Família

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“A família é formada por um homem e uma mulher, através do casamento ou da união estável... e ‘blá blá blá’...”.
Decisão recente da câmara dos deputados, parte integrante de nosso legislativo, cuja função é representar o povo, legislar sobre os assuntos de interesse nacional e fiscalizar a aplicação dos recursos públicos pelo Poder Executivo. Tal deliberação vai de encontro às atribuições dessa casa ante a nação brasileira, pois, qual o interesse de se definir o conceito de “família” se a intenção não for excluir as não encaixadas nesse premissa absurda, para não dizer religiosa? Cadê a noção de Estado Laico se, gradativamente, estamos sendo domados por uma política hierática.
Um conservadorismo velado e uma empatia de araque flutuam sobre nossas cabeças e de repente desabam, trazendo à tona mazelas antigas: nosso eterno desjeito com o direito do outro.
Essa discussão não é bobagem! Posso perder direitos cíveis se não compuser um quadrado patético na iminência de se tornar lei; posso ter minha cidadania comprometida, e pior, posso perder uma identidade conquistada.
Quero mesmo é ver os direitos sociais, infringidos diariamente no cotidiano do brasileiro, virarem agenda dos nossos [lugar reservado a boa educação] deputados e senadores; quero ver o ímpeto por mudança ascender das promessas de campanhas e se tornar realidade, afinal, representar o povo não é um favor que nos fazem, assim como conceituar família não deveria ser prioridade.   
Família é formada por pessoas! Ser homem ou ser mulher, agir como, atuar como... são questões flexíveis e questionáveis, por que ir na contramão do progresso, do respeito e da tolerância às escolhas do outro? Por que ao invés de ampliar a palavra “família” como fez de forma inteligente o comercial da Vitarella, esses 17 votos contra cinco querem reduzi-la? 
Luto por agravar o lado positivo do Brasil nas minhas atitudes, por não ratificar ideias destruidoras e opiniões pessimistas acerca de nossa longa condição de “país em desenvolvimento”, mas a verdade é que ainda estamos engatinhando em direção à nossa Revolução Francesa; nossa tríade (liberdade, igualdade e fraternidade) não se confirmou. A criança preterida pela consciência coletiva hoje é adulta, entrou na política partidária e governa para os seus – e seguimos encarando nossas guerras civis como fatalidade.
Mas acreditar no Brasil não me é uma opção é algo que eu mesmo me imponho, e componho, sim, a fila dos otários, que embora amordaçados, gritam em silêncio para acordar a nação; asseclas de uma ética sempre por chegar.
“Reconhecer um certo número de fatos novos indicativos da emergência de uma nova história. O primeiro desses fenômenos é a enorme mistura de povos, raças, culturas, gostos, em todos os continentes”. Santos, Milton. Por uma outra globalização. E acrescento, Milton, outro fato – o familiar.
Conceituar família? Tal atitude, para mim, será sempre algo excludente, leviano e pretensioso.
Ivanilson Martins


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