quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Cyberbullying


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“Foi muito doloroso. E nasceu em mim uma coisa de revanche terrível, porque a partir desse momento, comecei a odiar, a odiar. Se alguém me colocasse uma metralhadora em mãos, eu iria matar brancos (felizmente, ninguém me colocou). Hoje sei quem sou. Hoje ninguém me pode insultar. Hoje sei que coisa é compartilhar. Hoje sei que temos um compromisso e esse começa com cada um – o que não conviver consigo mesmo, não poderá conviver com ninguém.”.
      O trecho acima foi retirado de uma entrevista da poetiza e socióloga peruana, Victoria Santa Cruz, falecida em 2014, aos 92 anos, nele a autora retrata um episodio vivido por ela aos cinco anos de idade, quando, pela primeira vez, foi vítima de racismo. Não ter chão; sentir-se de início fragilizado, vulnerável e agredido em seu mais intimo espaço: a sua dignidade humana. O racismo pode ser capaz de retirar de nós uma autoestima ainda desconhecida; pode ser capaz de nos anular substancialmente e matar a possibilidade de virmos a ser alguém completo, entre outras negatividades. Mas, em contrapartida, pode oportunizar-nos uma força gigantesca e, como acontecera com a socióloga, pode tornar-nos agentes legítimos contra segregações étnicas.
        Hoje, os agressores, citados pela autora como “brancos”, dispõem de uma ferramenta poderosa para as mais diversas injúrias. A rede mundial de computadores tem sido costumeiramente utilizada para ofensas a estilos e ideologias. A verdade é: esses agentes sempre existiram, mas a falta de espaço e de meios ditos práticos para depreciações com aparências, crenças e sexualidade os mantinham em suas alcovas. A convergência de mecanismos de interação proporcionada pela internet tem dado estímulos aos sentimentos vis desses chamados haters. E quem se atrever a ser ou agir diferente de padrões, também questionáveis, deve estar preparado para possíveis enxurradas de comentários lamentáveis.
Exemplos não faltam, desde celebridades sendo alvo de posts ofensivos, até o surgimento de grupos organizados especialmente para praticar o chamado cyberbullying, e na mira, as minorias de sempre. Talvez lhes falte o olhar subjetivo, do qual todos são capazes de fazer uso, olhar além do físico, olhar contemplativo sobre as matizes humanas, suas magnificas formas de transformação e resistência. Por certo, de posse de este olhar, poderiam perceber obviedades, como o fato de o negro ser o patrocinador de diversas manifestações culturais pelo mundo. Poderiam mirar a sexualidade como algo dissociado do físico, ela é muito mais uma roupagem interior. Poderiam admirar a capacidade de que dispõem alguns de driblar deficiências e portar medalhas no peito.
Com o surgimento de legislações específicas, como o marco civil da internet de 2014, igualmente a sempre citada e pouco efetivada educação de base, seja a escolar, familiar ou social, poderemos encarar o lado positivo do mundo virtual e torná-lo instrumento de desenvolvimento e cidadania. Para tanto, faz-se necessário reflexões acerca de atitudes diárias perante um computador, quer compartilhando notas duvidosas, quer passando por cima de privacidades e direitos ao publicar ou comentar fotos e vídeos. Começando por cada um, poderemos chegar proficuamente ao outro, e assim, aprender com ele, conforme assevera a escritora peruana, Victoria Santa Cruz.

                Ivanilson Martins