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“Foi muito doloroso. E nasceu em mim uma coisa de
revanche terrível, porque a partir desse momento, comecei a odiar, a odiar. Se
alguém me colocasse uma metralhadora em mãos, eu iria matar brancos
(felizmente, ninguém me colocou). Hoje sei quem sou. Hoje ninguém me pode
insultar. Hoje sei que coisa é compartilhar. Hoje sei que temos um compromisso
e esse começa com cada um – o que não conviver consigo mesmo, não poderá
conviver com ninguém.”.
O trecho acima foi retirado de uma
entrevista da poetiza e socióloga peruana, Victoria Santa Cruz, falecida em
2014, aos 92 anos, nele a autora retrata um episodio vivido por ela aos cinco
anos de idade, quando, pela primeira vez, foi vítima de racismo. Não ter chão;
sentir-se de início fragilizado, vulnerável e agredido em seu mais intimo
espaço: a sua dignidade humana. O racismo pode ser capaz de retirar de nós uma
autoestima ainda desconhecida; pode ser capaz de nos anular substancialmente e
matar a possibilidade de virmos a ser alguém completo, entre outras
negatividades. Mas, em contrapartida, pode oportunizar-nos uma força gigantesca
e, como acontecera com a socióloga, pode tornar-nos agentes legítimos contra segregações
étnicas.
Hoje, os agressores, citados pela autora
como “brancos”, dispõem de uma ferramenta poderosa para as mais diversas
injúrias. A rede mundial de computadores tem sido costumeiramente utilizada
para ofensas a estilos e ideologias. A verdade é: esses agentes sempre
existiram, mas a falta de espaço e de meios ditos práticos para depreciações
com aparências, crenças e sexualidade os mantinham em suas alcovas. A convergência
de mecanismos de interação proporcionada pela internet tem dado estímulos aos
sentimentos vis desses chamados haters.
E quem se atrever a ser ou agir diferente de padrões, também questionáveis,
deve estar preparado para possíveis enxurradas de comentários lamentáveis.
Exemplos não faltam, desde celebridades sendo alvo
de posts ofensivos, até o surgimento
de grupos organizados especialmente para praticar o chamado cyberbullying, e na
mira, as minorias de sempre. Talvez lhes falte o olhar subjetivo, do qual todos
são capazes de fazer uso, olhar além do físico, olhar contemplativo sobre as
matizes humanas, suas magnificas formas de transformação e resistência. Por
certo, de posse de este olhar, poderiam perceber obviedades, como o fato de o
negro ser o patrocinador de diversas manifestações culturais pelo mundo. Poderiam
mirar a sexualidade como algo dissociado do físico, ela é muito mais uma
roupagem interior. Poderiam admirar a capacidade de que dispõem alguns de
driblar deficiências e portar medalhas no peito.
Com o surgimento de legislações específicas, como o
marco civil da internet de 2014, igualmente a sempre citada e pouco efetivada educação
de base, seja a escolar, familiar ou social, poderemos encarar o lado positivo
do mundo virtual e torná-lo instrumento de desenvolvimento e cidadania. Para tanto,
faz-se necessário reflexões acerca de atitudes diárias perante um computador, quer
compartilhando notas duvidosas, quer passando por cima de privacidades e
direitos ao publicar ou comentar fotos e vídeos. Começando por cada um,
poderemos chegar proficuamente ao outro, e assim, aprender com ele, conforme
assevera a escritora peruana, Victoria Santa Cruz.
Ivanilson Martins

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