terça-feira, 30 de outubro de 2012

Paragens andam junto a mim reabrindo-me para o mar.





Paragens andam junto a mim reabrindo-me para o mar.
Eu prefiro os gestos dos alucinados em plena quatro horas da tarde. Prefiro a coragem de ser à comodidade de se estar.
Convicto de que não regrido, cedo à brisa da estrada, e desvio um pouco de diversas cicatrizes, amparado pelo clima harmônico da natureza vespertina.
Paragens andam junto a mim reabrindo-me para o mar.
Convicto de que não regrido, dispo-me de desejos intocados, amparado pela delicadeza dos pingos fugidios de chuvas imortais presentes em meu caminho.
Paragens andam junto a mim reabrindo-me para o mar.
Deus torna-se minha mais perfeita criação, enquanto a tristeza se ramifica pelo ar.

Ivanilson Martins


quarta-feira, 27 de junho de 2012

Fraterno

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“Estamos aqui hoje para louvar ao senhor.”
Assim começara meu irmão em seu discurso, e eu que sempre tivera meus entraves com religião, estava ali nos últimos bancos da pequena capela na esquina de nossa rua. Rua humilde que também integrava o holl de meus silêncios. Não sei como nem porquê comecei a edificar meus ódios, mas aquela oração construiu algo de puro em minha imagem até ele. A importância de estar conduzindo algo para um Deus que, para ele, parecia tão possível. Senti certa intimidade com o significado de família. Nunca pensei sentir tanto orgulho por ele e sua família. E ele me chamava, à sua maneira – com a bíblia – para ir comer do bolo. Deixei fantasias e perfeições e admiti meu engajamento para amar, e, com muito talento, amei todos os que a ele miravam com respeito; amei a religiosidade por cerca-lo naquele momento e esqueci-me de qualquer primitivismo e ou alienação cercante em muros religiosos. Eu lamentei por não estar numa roupa mais elegante e por ter negligenciado suas dúvidas de Matemática, dez anos atrás. E a lágrima, ameaçadora durante toda minha vida, e, incutida em inúmeras raivas, enfim, despregou-se de minha casca humana, atingindo graus de espíritos, necessários para quem quer se conhecer. E foi esta presença de espírito que me fez desejar felicidades – quase acreditei nela. Mas não precisei de credulidades nesta hora, pois estar num âmbito desacreditado para mim, não me impediu de deixar qualquer solo e tocar emoções de infância.  
Talvez atingir a maturidade com repúdios de passados não seja verdade. Quando dei por mim estava de mãos postas e, de olhos fechados, não acompanhei a oração: acompanhei nossos passos de irmãos; seus olhar era o meu, e nossa mãe ao lado espraiava tudo que podia para que pudéssemos, finalmente, nos enxergar. As vozes dos hinos e os améns rodopiavam diante de mim. Não foi uma pessoa que nascera ali – foi uma vivificação exigindo descanso de uma família. E não por estar na igreja, mas Deus assistia, ali, a outras formas de nascimento, enquanto todos cantavam parabéns para meu sobrinho em seus três anos de idade.

Ivanilson Martins

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Arte e arte. (revisado)


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Admito, verdadeiramente, o lado pessoal do conceito de Arte, sua identificação particular sentida por cada um de forma diferenciada, e convertida em outras expressões num ciclo interminável e, em suas maiorias, positivo.  
Mas...
Admito também meu lado aprendiz e crítico diante de tanta coisa [no sentido mais pobre desta palavra] mostrada em exposições de alto nível como – Arte. Não falo esta palavra sem propriedade de artista não, pois tenho a alma de um e, por isso mesmo: o incômodo. Essa Arte chamada – contemporânea – me parece oportunismo. Esse pensamento certamente já fora dito por outras pessoas, inclusive especialistas no assunto [o que não me considero] – sou artista no sentido mais prático da palavra, mas o pedantismo de tais “artistas” consegue – antes mesmo de chegar à suposta “arte” – deteriorá-la em sua pouca essência.
Artista que se considera detentor de Arte nem sabe o significado disso.
Se o conceito de arte é extremamente subjetivo e varia de acordo com a cultura a ser analisada, período histórico ou até mesmo indivíduo em questão, por que tanta pretensão por detê-lo em braços tão pequenos e medíocres como os nossos. O “braço” do qual falo são os da Arte contida na poesia de Drummond. Concordo com a definição Aureliana sobre Arte: a capacidade criadora do artista de expressar ou transmitir tais sensações ou sentimentos. No entanto, essas sensações quando são superficiais em demasia, tal como: uma cadeira emborcada ou uma TV ligada num programa de venda e relacionada de forma pueril à Arte numa tentativa idiota de crítica ao capitalismo artístico. Pergunto-me onde está o universo para o qual somos levados, de forma geral, ao encarar-mos a Arte em todo seu potencial.
A Arte a qual me refiro não se limita ao sentido visual. Ela nos permite um debruçar-se mais transcendente em relação ao cotidiano limitado e preconceituoso ao qual estamos acostumados, ou seja, a Arte é elemento de elevação e precisa livrar-se de estereótipos banais.
- É apenas um círculo preto dentro de um quadrado branco e talvez só tenha sido fator de elevação para seu criador, e se ele contentar-se com isso, para mim não tem problemas. Mas não venha me fazer digeri-lo num rótulo de Arte.
Estou farto do lirismo que não é libertação.” Bandeira usou de Arte para demonstrar seu descontentamento e por mais que possa parecer taxativo: não temos um Manuel Bandeira em cada esquina não!
        Se uma foto inexpressiva de um homem comparando-se com um rabo de porco; uma caixa de tomates vazia no chão; sandálias gastas penduradas por barbantes; etc. fazem alusões a coisas e fatos que minha imensa ignorância não alcançam – admito minha incapacidade – e fico com as que eu alcanço: as telas de Miró, Portinari e Salvador Dalí; as obras de Aleijadinho, Van Gogh, Velázques e Caravaggio; as fotos de Sebastião Salgado. Etc.
Se uma mulher semi-nua soltando beijos para a plateia seguida por atores inexpressivos fazendo caras e bocas e suportados por roteiros secundaristas numa visível roupagem adulta for Teatro-Arte fico com as obras Clássicas, em detrimento dessa superficial contemporaneidade. Fico com Shakespeare e suas estórias mais do que repetidas, sem necessidade de uma inovação opaca e desprovida de talento como ando vendo.
E, mais uma vez: admito minha ignorância, mas também admito a Arte de rua, pois se os grandes salões, exposições, instalações consagram chuveiros quebrados fazendo alusão ao terror do holocausto; fotos em PB reinventadas aludindo aos abusos da ditadura com uma leve roupagem de Fidel criticando sutilmente o sistema capitalista, pois no fundo podemos ver uma garrafa de coca-cola o que nos remete ao imperialismo americano.
Palhaçada!
Se fosse real toda essa empatia com fases difíceis de nossa cruel humanidade não existiria tanta arrogância nesses patéticos pseudo-artistas, como também ando vendo.  
Porque será que não consideram a cantoria da rapper favelada descrevendo em rap, sua Arte, posições sexuais as mais chulas – talvez por ela não conseguir dizer isso se utilizando de analogias mesmo sendo um chuveiro quebrado. Sendo assim aplaudo a maioria do que tenho visto como arte contemporânea – como analogias simples, ou seja: como arte e não como Arte.

Ivanilson Martins