sexta-feira, 19 de julho de 2013

Poeta em atravesso...


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Como queres, semáforo, que cruze em dez segundos minhas dores... Como queres que cumpra regras; que evite carros; que priorize vida... Quando estou marionetando meu corpo numa estrada de poema rumo a uma possibilidade de outro lado. Outro verso. Outra estrofe. Outro bar!   
Ivanilson Martins




quarta-feira, 12 de junho de 2013

É apenas ficção!

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1. Eis que se encontram num cruzamento: uma ambulância, em sirenes exorbitantes, levando, atropelada, dona Agripina Vitória de 61 anos, vinda do interior. Em oposta avenida, o comboio das polícias federal e local, escoltando a seleção campeã do mundo, vinda da Espanha, para a copa das confederações na capital pernambucana.   
2 Uma chuva torrencial parecia aguardar o tal encontro. Quando o sinal abriu, os veículos quase se encontraram, não fosse a Companhia de Trânsito e Transporte Urbano, representada por inúmeros funcionários. A mesma Companhia articulou as vias públicas para receberem os reis do futebol, mas não esperava o desespero daquelas sirenes, ouvidas até pelos anjos que, em vão, tentavam abrir caminho para Agripina Vitória, rumo ao HR.
3. As sinalizações das polícias confundiam-se com a dos agentes de trânsito. Era visível o interesse de pedestres e motoristas em prol da Dona Ambulância.
4. Dona Agripina Vitória quase fora contemplada com a passagem, mas a chuva, enfim desabara sobre todos e, rapidamente, ocupara quaisquer espaços. Os carros, motos, caminhões, bicicletas... Estáticos ficaram como plateia para a tríade: Agripina Vitória em sua sirenada ambulância; duas polícias como escudo dos deuses do esporte e a chuva costurando rios, canais e veículos.
5. Seis horas faltavam para a abertura dos jogos. O hotel com estrelas a perder de vista esperava ansioso e, com comitiva: vice-presidente, governador, prefeito, secretário de esportes e muitos intérpretes de espanhol. Não haverá problemas de hospedagem, nem de comunicação para quem ganha vinte milhões por ano.
6. Sabendo de tais autoridades impacientes a olhar para o relógio sob as expectativas do mundo, o capitão federal e o representante da secretaria de trânsito se entreolharam e, quase por impulso, visaram sutil e simultaneamente a placa da gritante ambulância, em seguida, abriram as avenidas com vigor para a rubra seleção.
7. Fora uma pequena encenação de odisseia. Os briosos jogadores e sua escolta passaram por chuvas e buracos. Mais à frente, a casa de seu José fora desapropriada para escoarem lamas e lixos; os ônibus foram proibidos de circularem; as escolas e até os hospitais tiveram que rever o seu funcionamento; os pedintes, camelôs e prostitutas foram terminantemente proibidos de atuarem; os pivetes de rua foram isolados; a companhia de energia elétrica teve que garantir por escrito que seu serviço, enfim, fosse de qualidade e a polícia – eficiente – cercou todas as entradas de comunidades vizinhas, impedindo a saída de qualquer morador – de forma a facilitar a triunfal chegada dos heróis do mundo.

8. Meia hora depois chega a ambulância de Dona Agripina Vitória ao HR, localizado a apenas meio quilômetro dali. Desceu o motorista, uma enfermeira de olhos baixos e ineficazes como se carregassem todo o lamento de uma torcida ao ver a bola da vitória, no último minuto, triscar a barra. A neta Lucinha de nove anos chorando como um bezerro abandonado e, por fim, o corpo de Dona Agripina Vitória a ser embalsamado de volta ao município de Manari, no Sertão Pernambucano. Mas o país, de olhos vibrantes, logo gritará por gol.

Ivanilson Martins

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A violência que escorre...

 

Por um aperto incomum na cadeira da frente de onde eu estava sentado, ela chamou-me para seu mundo calado. Ela mantinha-se de pé, paralela às duas cadeiras, num ônibus em movimento. Pensei em dá-lhe o lugar, mas temi sua reação, pois não aparentava ter mais que trinta anos, talvez encarasse minha oferta de forma arredia. O sol estava baixo e sumia consonante ao subir das horas. Óculos bem espelhados a protegiam dos raios solares já dispersos e seus punhos de veias expostas não cediam ao cambalear do coletivo num trânsito lento.
Como explicar-lhes da tensão que observava sentado, de um rosto querendo fugir daquele espaço e daquela quase noite. Logo aqueles óculos se tornarão incoerentes. Sua virada de cabeça tensa e constante tornou-a mais enigma para mim – sua falta de relaxamento saltara sobre minha cômoda posição num disputado coletivo em horário de pico.
Fez-me analisá-la por suas margens: cabelos desconformes em parceria com uns óculos gigantes roubavam a quase totalidade de seu rosto de mim; uma sacola balançante dividia com brilhantes pulseiras o espaço de seu braço; calça jeans discreta e um tamanco cerravam sua fisionomia pequena e tímida. Faltou dizer-lhes do batom violeta bem forte, certamente combinando com o restante da maquiagem escondida pelos óculos.
Quase 18 horas. O espírito melancólico fazia emudecer toda a avenida vencida pelo veiculo e me dava mais autoridade para olhá-la. Finalmente despregou a mão da cadeira e quase suspendeu os óculos. Desistiu. Discretamente analisou o caminho pela janela e, também discretamente, puxou o sinalizador. Antes de abrir-se a porta central, ainda, pude ver a forte marca rocha cercando seu olho direito, que tentava com ar ridículo esconder da brisa teimosa a explodir em sua frente quando pôs o segundo pé no chão do, então, temido mundo.
Atônito a segui com o olhar, antes da partida do ônibus. Pude vê-la de cabeça levemente baixa andar escoltada por um homem pardo com ares de marido – não senti nele o mesmo instinto protetor que sentira pelos grandes óculos dela, agora sobre a cabeça, ainda, baixa.     

Ivanilson Martins