quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Senhora do mundo


Gloogle imagem

Vida e morte trajavam a mesma indumentária. O sangue insistente a escorrer pelas pernas manchava o resto que ainda tinha de alma. A vista embaçada era-lhe uma espécie de escudo, pois ver bem naquele momento só aumentaria as dores. A vergonha era o que a impedia de gritar por socorro. Vergonha das roupas rasgadas e cobertas por lama, da maquiagem esfacelada no rosto, dos hematomas, dos seios mordidos a mostra, do cabelo desfeito. Teve um lapso de memória ao tocá-los: da festa que ia, do último telefonema, da passagem das horas. Juntando a vestimenta, agora trapos, cobriu suas partes não mais íntimas. Em vão procurou a bolsa. Com a visão quase reconstituída, decalcou paredes até ser coberta por árvores numa mata cada vez maior. A cada passo sob as luzes dos postes amargava as mãos sobre seu corpo: duas, quatro, seis mãos macerando os sentidos que não mais respondiam regrados. Estava esquartejada: corpo, alma, vida e morte seguiam em caminhos opostos e nenhuma a acompanhava rumo à primeira fresta de rua, de asfalto. E quanto mais adiantasse o passo revelava-se uma ferida, até que perdeu o senso de humanidade e, tomada pelas escoriações, acostumou-se ao instante. Estatelada no presente. Nem mais percebia as lágrimas misturadas em sangue a deixar-lhe os olhos.
Viu a primeira placa de trânsito e por mais costumeira fosse tal avenida, não era uma profissional que a cruzava agora. Era o aniquilamento do humano. Arremedo de fêmea. Sua dama resguardada fora violada, tornara-se do mundo.
Fossem outras noites: o mercantil contornando o toque não iria além de corpo; o salto a tornaria maior; a provocante maquiagem, competitiva; a mini-saia, valiosa; o tope pressionando o busto, cara. Mas, destituída de simetria, não era vista como mulher – era mais uma passando com as feridas expostas. 
                                                                                                                                  Ivanilson Martins

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Poeta em atravesso...


Gloogle imagem
Como queres, semáforo, que cruze em dez segundos minhas dores... Como queres que cumpra regras; que evite carros; que priorize vida... Quando estou marionetando meu corpo numa estrada de poema rumo a uma possibilidade de outro lado. Outro verso. Outra estrofe. Outro bar!   
Ivanilson Martins




quarta-feira, 12 de junho de 2013

É apenas ficção!

Gloogle imagem

1. Eis que se encontram num cruzamento: uma ambulância, em sirenes exorbitantes, levando, atropelada, dona Agripina Vitória de 61 anos, vinda do interior. Em oposta avenida, o comboio das polícias federal e local, escoltando a seleção campeã do mundo, vinda da Espanha, para a copa das confederações na capital pernambucana.   
2 Uma chuva torrencial parecia aguardar o tal encontro. Quando o sinal abriu, os veículos quase se encontraram, não fosse a Companhia de Trânsito e Transporte Urbano, representada por inúmeros funcionários. A mesma Companhia articulou as vias públicas para receberem os reis do futebol, mas não esperava o desespero daquelas sirenes, ouvidas até pelos anjos que, em vão, tentavam abrir caminho para Agripina Vitória, rumo ao HR.
3. As sinalizações das polícias confundiam-se com a dos agentes de trânsito. Era visível o interesse de pedestres e motoristas em prol da Dona Ambulância.
4. Dona Agripina Vitória quase fora contemplada com a passagem, mas a chuva, enfim desabara sobre todos e, rapidamente, ocupara quaisquer espaços. Os carros, motos, caminhões, bicicletas... Estáticos ficaram como plateia para a tríade: Agripina Vitória em sua sirenada ambulância; duas polícias como escudo dos deuses do esporte e a chuva costurando rios, canais e veículos.
5. Seis horas faltavam para a abertura dos jogos. O hotel com estrelas a perder de vista esperava ansioso e, com comitiva: vice-presidente, governador, prefeito, secretário de esportes e muitos intérpretes de espanhol. Não haverá problemas de hospedagem, nem de comunicação para quem ganha vinte milhões por ano.
6. Sabendo de tais autoridades impacientes a olhar para o relógio sob as expectativas do mundo, o capitão federal e o representante da secretaria de trânsito se entreolharam e, quase por impulso, visaram sutil e simultaneamente a placa da gritante ambulância, em seguida, abriram as avenidas com vigor para a rubra seleção.
7. Fora uma pequena encenação de odisseia. Os briosos jogadores e sua escolta passaram por chuvas e buracos. Mais à frente, a casa de seu José fora desapropriada para escoarem lamas e lixos; os ônibus foram proibidos de circularem; as escolas e até os hospitais tiveram que rever o seu funcionamento; os pedintes, camelôs e prostitutas foram terminantemente proibidos de atuarem; os pivetes de rua foram isolados; a companhia de energia elétrica teve que garantir por escrito que seu serviço, enfim, fosse de qualidade e a polícia – eficiente – cercou todas as entradas de comunidades vizinhas, impedindo a saída de qualquer morador – de forma a facilitar a triunfal chegada dos heróis do mundo.

8. Meia hora depois chega a ambulância de Dona Agripina Vitória ao HR, localizado a apenas meio quilômetro dali. Desceu o motorista, uma enfermeira de olhos baixos e ineficazes como se carregassem todo o lamento de uma torcida ao ver a bola da vitória, no último minuto, triscar a barra. A neta Lucinha de nove anos chorando como um bezerro abandonado e, por fim, o corpo de Dona Agripina Vitória a ser embalsamado de volta ao município de Manari, no Sertão Pernambucano. Mas o país, de olhos vibrantes, logo gritará por gol.

Ivanilson Martins