domingo, 27 de dezembro de 2015

Eis-me



Endureci rápido. Retive a fibra do primeiro choro. Suguei do peito mais sangue que leite. Desenvolvi a astúcia dos gafanhotos para desbravar caminhos. Dos lobos para escapar das águias. Transvasei o aboio torturante da fome e cresci. Cutuquei o medo com vara curta e, quando ele mostrou a face, mostrei-lhe o peito endurecido. Não é qualquer palavra que me fere. Minhas chagas não se traduzem – são versos negros, rompidos num silêncio noturno. Meus relâmpagos ninguém vê. Sou perfeito pra trilhas árduas. Quando caio não me machuco. Só não sirvo pra se encostar. Sou cacto rijo. De espinhos prolongados. Armazeno água no caule.
Ivanilson Martins 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Poesia



Sou bicho couraçado 
Lido com vísceras
Ante os perigos do mar
Sou ostra amargurada
Recolhida
Fugidia
Assim como os poetas
– produzo pérolas para me proteger.

Ivanilson Martins


sábado, 19 de dezembro de 2015

Indefinição

Google Imagem

Eu tenho a minha indefinição.
Destoo da paisagem dos festivos.
Dos realizados.
Estar triste independe de ter chão.
Com a face submergida nas águas dos rios.
Com a audição tomada pelos cânticos dos pássaros.
Com os medos que tenho da vida e da morte.
[Eu me levanto.

Ivanilson Martins