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Se
algum turista amigo me escrevesse perguntando: devo passar minhas férias ai, em
Olinda? Eu diria: é maravilhosa, em beleza e história. É uma das mais
preservadas cidades coloniais do Brasil, mas, como cidadão olindense, eu alerto
– ela mantém vivas outras peculiaridades coloniais: nossos altos impostos não
refletem nossa qualidade de vida.
Venha
com um ótimo plano de saúde, ou com um grau elevadíssimo de mediunidade, pois,
para usufruir do “excelente” atendimento nos postos públicos, dado por pseudoassistentes
de saúde, indicadas pelos nossos (lugar destinado à boa educação) vereadores,
você terá que intuir com meses de antecedência suas doenças, uma vez que sua
consulta só se confirmará quando fizer aniversário, ou seja, Olinda tem gente
que torce! Ah, esqueça isso de “prioridade para mulheres, crianças e idosos”.
Para pegar a ficha de atendimento pro próximo mês, na escuridão da madrugada:
todo mundo é igual.
Venha
com hospedagem garantida no centro, já que a periferia só receberá a visita do
prefeito, quando este for candidato; só aparece no rodapé da mídia, quando
queima pneu e interdita avenida, e, lógico, quando exalta a negritude em arte
nas ladeiras carnavalescas. Essa mesma periferia se boicota pichando suas
escolas e quebrando seus orelhões; prefere votar na final do Big Brothers a dar
seu voto no Orçamento Participativo (OP), para definir as prioridades do
dinheiro público, mas também há criatividade aqui – em criar siglas: CAC
(comando de Águas Compridas), VDB (vândalos da Bondade), TGN (turma da gata de
Nova Olinda), CQJB (cornos da quebradeira de Jardim Brasil), MRD (maconheiros
de Rio Doce) entre outras. Quem disse que não somos organizados?
Nossas
periferias fazem arte à torta e à direita – essa arte pode ser vista: alegrando
palcos no Carmo, Fragoso e Guadalupe; transformando artisticamente comunidades
no nascedouro de Peixinhos; transmitindo cidadania às famílias dos catadores de
Santa Tereza e Sitio Novo; abrindo os dentes da elite e exercitando os punhos
da burguesia no bater da alfaia e no rabo-de-arraia da capoeira, na Sé... Mas,
terminado o evento, amontoam-se de volta ao aquecimento coletivo de Xambá, ao
salto com revezamento da PE-15, ao “pegue-seu-lugar-a-todo-custo” do terminal
de Rio Doce... ao esquecimento.
E,
por falar em coletivo: venha motorizado, pois nossos ônibus além de inseguros
podem passar sarna e estão sempre lotados. E nossas integrações (as que estão e
as que virão) são belos exemplos do quanto ainda somos colônia. E se estando
sem carro, pretender ultrapassar às 23h, na rua, terá que ir para nosso primo
ao lado: Recife, que, diferente de Olinda, dispõe de bacuraus para as
periferias, inclusive as nossas, pois nosso prefeito certamente tem carro, e se
não tivesse, os bairros de destino costumeiros por certo não seriam os das
siglas acima.
Venha
só pelo sol, pois nossas praias agregam diversos banhistas: coliformes,
bactérias, germes e, lógico, nós humanos. E como micoses não esperam
aniversário de consultas – é melhor não arriscar.
Não
se limite às comuns paisagens praieiras de Casa Caiada e Bairro Novo e às ruas
bem asfaltadas de Bultrins, Jardim Atlântico, Amparo e Ouro Preto. Fotografe,
também, o canal aberto de Salgadinho, recheado de espécies raras e ainda não
catalogadas por nenhum biólogo; os morros do Alto da Conquista, modelado a cada
chuva; as matas virgens que rodeiam o Alto do Sol Nascente; a feira do
troca-troca de Caixa D’água, que acompanha a de Caruaru em variedades; o
risca-faca de Passarinho, onde as garçonetes estão no cardápio; e o lixão de
Aguazinha, que mesmo desativado, ainda é arrimo de muitas famílias.
Venha destinado a não
sustentar máfias, pequenas ou grandes: dando esmolas; pagando flanelinhas;
comprando pipoca e mentos de crianças; pagando a cervejinha do
pequeno-poder; virando a vista das crianças da V8, se prostituindo por drogas
no viaduto do Varadouro; ouvindo o arcebispo mó e toda sua
corte intocável – patética... pois,
estas aí, a gente já sustenta há muito tempo. Quer visitar Olinda? Venha com os
braços abertos – olhando pros lados.
Ivanilson
Martins

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