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“O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma
culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa”.
(Eduardo Galeano)
“Quero ir pro meu barraco e dar a buceta pro
negão que me visita”. Gritou a velha louca ao cruzar a esquina. Digo “louca”
não pelas palavras, lúcidas e instintivas, mas pelos gestos desordenados, pelo
sorriso meio lunático, cabelos desgrenhados e pela vestimenta pútrida que
usava.
E os
olhares dos transeuntes – todos eles – voltaram-se para ela. Horrorizada, nossa
sociedade tratou de tapar os ouvidos dos menores; muitos esboçaram risinhos de
lado; mãos quase a agrediram por dizer com voz alta o proibido, o resguardado
para fins de noite sob cobertas límpidas. As mulheres, em especial, tiveram
pena dela. Ouviu-se de longe algo como: “Deus
me livre”.
Por certo
não se deve dizer coisas íntimas ao ar livre e em plena avenida lotada, e,
dependendo do tom de voz, riso é normal. Afinal, quem ouve tal frase gritada no
meio de uma avenida?
Frases como
essa costumam chegar aos nossos ouvidos através de fones, em local bem
discreto, com o dedo no stop, caso pés
se aproximem; talvez vinda de bocas quentes, em casas apropriadas ou numa encenação,
neste último, a plateia manter-se-á adequada à sua formação e usando termos
como: arte, licença poética, instalação ou quaisquer outros politicamente
corretos.
Fernando
Pessoa fez o seguinte questionamento em um de seus poemas: “onde há gente no mundo?”. Falava dos seres
que parecem perfeitos numa moldura de capacidade moral extrema. Lamento que
muitos tenham vestido esse tom hipócrita de pele; esse sorriso de normalidade
que me soa como atraso de vida, ademais de farsante e incoerente ao que se
percebe no olhar, gestos e – principalmente – em atitudes escusas e imorais. Lamento
que o horror na expressão de muitos ali tenha sido pelo conteúdo e não pela
forma da frase. E que fazer sexo siga como algo sujo e escabroso. Lamento que
eu continue censurando no outro o que eu não tenho coragem de fazer. Lamento que
eu levante bandeiras, armas, discursos, propostas de leis, dogmas e religiões contra
algo natural, prazeroso e eficaz quanto o sexo.
Dever-se-ia
levantar-se contra sua maneira de oprimir: pedofilia, exploração sexual, violência
sexual, homofobia etc. Bem como quaisquer outras formas de interferência negativa
na intimidade do outro.
Naquela cidade,
entre muitos passantes, havia uma velha louca e feliz por saber-se penetrada
por um negão. Talvez, precisemos atingir o estado de loucura para afastar o
excesso de culpa e se aconchegar na pele de um homem ou de uma mulher e suas derivações.
Ser feliz será bem mais simples quando despejarmos de nós o excesso de lixo que
se acumula e passarmos a conviver com nossas possibilidades de expansão espiritual
– o corpo é um departamento importante a ser explorado nessa tarefa.
Ivanilson Martins

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