quinta-feira, 6 de junho de 2013

A violência que escorre...

 

Por um aperto incomum na cadeira da frente de onde eu estava sentado, ela chamou-me para seu mundo calado. Ela mantinha-se de pé, paralela às duas cadeiras, num ônibus em movimento. Pensei em dá-lhe o lugar, mas temi sua reação, pois não aparentava ter mais que trinta anos, talvez encarasse minha oferta de forma arredia. O sol estava baixo e sumia consonante ao subir das horas. Óculos bem espelhados a protegiam dos raios solares já dispersos e seus punhos de veias expostas não cediam ao cambalear do coletivo num trânsito lento.
Como explicar-lhes da tensão que observava sentado, de um rosto querendo fugir daquele espaço e daquela quase noite. Logo aqueles óculos se tornarão incoerentes. Sua virada de cabeça tensa e constante tornou-a mais enigma para mim – sua falta de relaxamento saltara sobre minha cômoda posição num disputado coletivo em horário de pico.
Fez-me analisá-la por suas margens: cabelos desconformes em parceria com uns óculos gigantes roubavam a quase totalidade de seu rosto de mim; uma sacola balançante dividia com brilhantes pulseiras o espaço de seu braço; calça jeans discreta e um tamanco cerravam sua fisionomia pequena e tímida. Faltou dizer-lhes do batom violeta bem forte, certamente combinando com o restante da maquiagem escondida pelos óculos.
Quase 18 horas. O espírito melancólico fazia emudecer toda a avenida vencida pelo veiculo e me dava mais autoridade para olhá-la. Finalmente despregou a mão da cadeira e quase suspendeu os óculos. Desistiu. Discretamente analisou o caminho pela janela e, também discretamente, puxou o sinalizador. Antes de abrir-se a porta central, ainda, pude ver a forte marca rocha cercando seu olho direito, que tentava com ar ridículo esconder da brisa teimosa a explodir em sua frente quando pôs o segundo pé no chão do, então, temido mundo.
Atônito a segui com o olhar, antes da partida do ônibus. Pude vê-la de cabeça levemente baixa andar escoltada por um homem pardo com ares de marido – não senti nele o mesmo instinto protetor que sentira pelos grandes óculos dela, agora sobre a cabeça, ainda, baixa.     

Ivanilson Martins

sábado, 1 de junho de 2013

Eros para Heróis

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Veio chegando com malícia cobrindo “ISMOS”, colocou as barbas de molho na minha sopa e puxou meu pequeno fio exposto de fragilidade: sou crueza de sexualidade; expansão de felicidade; espírito em estado bruto. Universo em desencanto.
Iludido abri a mente e o corpo e de pelos eriçados joguei-me na cama como se fora mar. Meu quarto anestesiado despercebia marretadas nas paredes; janelas arregaçadas; rejuntes de cerâmicas separadas por longas estocadas; e telhas indo e vindo do céu a cada urro.  
Esgotamos todos os discos de rock da estante para abafar gritos, sussurros e gemidos de dor e prazer – tudo misturado sem coesão, sociologias ou catecismos.
Esgotamos todos os cremes lubrifica-dores dos armários para facilitar a entrada de partes desanatômicas.
Conectamos nossas veias e artérias com os canos da casa e as tubulações do quarteirão para passagem do gozo, até romper estruturas e cair como chuva sobre bocas e poros dos que ousam sair de guetos.
Ao descermos para nossos limites de pele, concreto, endereço e sociedade eu, ainda, era livre.
Ele: banhou-se, vestiu trajes de zumbi, pegou a bíblia e seguiu para o culto numa tentativa de livrar-se do estado de alma que nunca atingira.

Ivanilson Martins

sábado, 25 de maio de 2013

Rainha do Milho

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"o poeta não é um ser de luxo, ele não é uma excrescência ornamental da sociedade, é uma necessidade orgânica de uma sociedade, a sociedade precisa daquilo, daquela loucura, para respirar. é através da loucura dos poetas, da ruptura que eles representam, que a sociedade respira..."
Paulo Leminsky


Dedicada como uma flor quando quer se revelar abriu a saia e rodou conquistando grande espaço ao redor. Fora sucumbida pela vestimenta de Rainha do Milho e, embora, o reinado fosse de apenas trinta minutos de dança na quadrilha: sua majestade tomara-lhe outros espaços.
Cortejada pelo mais vistoso cavalheiro e respeitada por toda a palhoça fez digno tal momento de solista em meio a aplausos vindos de quaisquer mãos. Facilmente apaixonante as sensações que a enredavam: trono, respeito, luz.
Bailou entre triângulos, sanfonas e zabumbas com gestos delicados e passos autênticos – era belo o semblante imposto de mulher aos que a veem em outras épocas. Bandeirinhas multicoloridas empolgadas com o forró eram apenas figurativas diante do peito garbo e do olhar emoldurado por cultura, arte e alegria.
Terminadas as coreografias apertou com sofreguidão a cintura, pisou com o dobro de peso o salto, olhou fixamente o mundo em volta daquela festa junina, mas não pôde segurá-la por mais tempo.
E se eu me apaixonar por tal mundo? A resposta a tal pergunta viera com o apagar das luzes; a separação de mãos de rei e rainha do milho e o anúncio em alto-falante da próxima atração.
Sozinha foi se descompondo. Enquanto tirava os cílios, o enchimento do colo e a peruca – se sentia mais vigiada.
Caminhou aplaudido pelos súditos que ainda guardava em pensamento. E os mesmos aplausos: agora eram risos ignóbeis plantados em rostos eternamente destituídos de majestade.

Ivanilson Martins