segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Minha morte poetizada


Quando morri afogado, meu último toque fora no desconhecido. Num beijo agoniado e desconforme, esvaiu-se a minha vida. Com o sal do mar esfoliando a minha pele e o som das ondas se encolhendo nos meus ouvidos, senti uma sombra apagando o sol dentro da minha íris.
Quando morri queimado, meu corpo se desmanchou em líquido, como numa paixão. As pupilas, esturricadas, foram as últimas a se desprenderem da vida. Os ossos, expostos, impuseram sua rigidez, até desabarem como cetros sem pulso. Meus pensamentos fugidios se camuflaram em meio à fumaça, como pássaros livres em meio à miscelânea da natureza.
Quando fui atingido por um raio, de meu corpo nada restou. Um sepulcro se formou no chão. Morri sem direcionar nenhum sorriso, nenhuma súplica. Devo ainda estar vivo procurando algum sentido entre um estado e outro. De peito aberto, vagueando num silêncio absoluto.
Quando morri de amor, o corpo se manteve intacto, ainda esperava um gesto, uma fagulha, uma brisa – algo que se desprendesse do imenso e caísse como fruta madura sobre o tapete fértil de um espírito sobressaltado. Incontáveis portas esperavam tua visita. E quando parecias chegar, abriram-se entusiasmadas. Mas eram espectros, apenas espectros cobiçando uma alma abandonada.

Ivanilson Martins  

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

[E ri-se, ouvindo, ao longe, os passos da cuidadora Esmeralda].

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– Pois é, Mel, comecei querendo um homem bonito na adolescência; acrescentei inteligência na juventude; quando adulta, percebi: honestidade também é importante! Na maturidade, bom humor; no casamento, achei estar tudo ajeitado; com a viuvez, voltei à lista; com a velhice, sai cortando itens. Hoje, bastaria ser homem para ganhar aval de entrada.
– Ai, dona Zu, mas isso não é problema somente da idade: eu mesma, há pouco tempo, tinha mania de escolher parceiros pelo pé, quanto mais limpo mais chance tinha comigo; hoje a crise está tão grande que tenho andado com um par de meias na bolsa. Qualquer coisa, digo que é fetiche.  
Ah, querida, se meus vizinhos garanhões aposentados de pornochanchadas não perigassem morrer em cima de mim, faria uma fila de bengalas na minha alcova e deixaria todas as minhas putas saírem. Velhas. Loucas. Livres. Porque eu não morro, não! Não por querer. Vou, mas vou arrastada, Mel. E vou tentando argumentar com a morte, essa dona sem rosto, sem pele, sem cheiro, sem critérios.

Ivanilson Martins


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Família

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“A família é formada por um homem e uma mulher, através do casamento ou da união estável... e ‘blá blá blá’...”.
Decisão recente da câmara dos deputados, parte integrante de nosso legislativo, cuja função é representar o povo, legislar sobre os assuntos de interesse nacional e fiscalizar a aplicação dos recursos públicos pelo Poder Executivo. Tal deliberação vai de encontro às atribuições dessa casa ante a nação brasileira, pois, qual o interesse de se definir o conceito de “família” se a intenção não for excluir as não encaixadas nesse premissa absurda, para não dizer religiosa? Cadê a noção de Estado Laico se, gradativamente, estamos sendo domados por uma política hierática.
Um conservadorismo velado e uma empatia de araque flutuam sobre nossas cabeças e de repente desabam, trazendo à tona mazelas antigas: nosso eterno desjeito com o direito do outro.
Essa discussão não é bobagem! Posso perder direitos cíveis se não compuser um quadrado patético na iminência de se tornar lei; posso ter minha cidadania comprometida, e pior, posso perder uma identidade conquistada.
Quero mesmo é ver os direitos sociais, infringidos diariamente no cotidiano do brasileiro, virarem agenda dos nossos [lugar reservado a boa educação] deputados e senadores; quero ver o ímpeto por mudança ascender das promessas de campanhas e se tornar realidade, afinal, representar o povo não é um favor que nos fazem, assim como conceituar família não deveria ser prioridade.   
Família é formada por pessoas! Ser homem ou ser mulher, agir como, atuar como... são questões flexíveis e questionáveis, por que ir na contramão do progresso, do respeito e da tolerância às escolhas do outro? Por que ao invés de ampliar a palavra “família” como fez de forma inteligente o comercial da Vitarella, esses 17 votos contra cinco querem reduzi-la? 
Luto por agravar o lado positivo do Brasil nas minhas atitudes, por não ratificar ideias destruidoras e opiniões pessimistas acerca de nossa longa condição de “país em desenvolvimento”, mas a verdade é que ainda estamos engatinhando em direção à nossa Revolução Francesa; nossa tríade (liberdade, igualdade e fraternidade) não se confirmou. A criança preterida pela consciência coletiva hoje é adulta, entrou na política partidária e governa para os seus – e seguimos encarando nossas guerras civis como fatalidade.
Mas acreditar no Brasil não me é uma opção é algo que eu mesmo me imponho, e componho, sim, a fila dos otários, que embora amordaçados, gritam em silêncio para acordar a nação; asseclas de uma ética sempre por chegar.
“Reconhecer um certo número de fatos novos indicativos da emergência de uma nova história. O primeiro desses fenômenos é a enorme mistura de povos, raças, culturas, gostos, em todos os continentes”. Santos, Milton. Por uma outra globalização. E acrescento, Milton, outro fato – o familiar.
Conceituar família? Tal atitude, para mim, será sempre algo excludente, leviano e pretensioso.
Ivanilson Martins