sábado, 25 de maio de 2013

Rainha do Milho

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"o poeta não é um ser de luxo, ele não é uma excrescência ornamental da sociedade, é uma necessidade orgânica de uma sociedade, a sociedade precisa daquilo, daquela loucura, para respirar. é através da loucura dos poetas, da ruptura que eles representam, que a sociedade respira..."
Paulo Leminsky


Dedicada como uma flor quando quer se revelar abriu a saia e rodou conquistando grande espaço ao redor. Fora sucumbida pela vestimenta de Rainha do Milho e, embora, o reinado fosse de apenas trinta minutos de dança na quadrilha: sua majestade tomara-lhe outros espaços.
Cortejada pelo mais vistoso cavalheiro e respeitada por toda a palhoça fez digno tal momento de solista em meio a aplausos vindos de quaisquer mãos. Facilmente apaixonante as sensações que a enredavam: trono, respeito, luz.
Bailou entre triângulos, sanfonas e zabumbas com gestos delicados e passos autênticos – era belo o semblante imposto de mulher aos que a veem em outras épocas. Bandeirinhas multicoloridas empolgadas com o forró eram apenas figurativas diante do peito garbo e do olhar emoldurado por cultura, arte e alegria.
Terminadas as coreografias apertou com sofreguidão a cintura, pisou com o dobro de peso o salto, olhou fixamente o mundo em volta daquela festa junina, mas não pôde segurá-la por mais tempo.
E se eu me apaixonar por tal mundo? A resposta a tal pergunta viera com o apagar das luzes; a separação de mãos de rei e rainha do milho e o anúncio em alto-falante da próxima atração.
Sozinha foi se descompondo. Enquanto tirava os cílios, o enchimento do colo e a peruca – se sentia mais vigiada.
Caminhou aplaudido pelos súditos que ainda guardava em pensamento. E os mesmos aplausos: agora eram risos ignóbeis plantados em rostos eternamente destituídos de majestade.

Ivanilson Martins

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Paragens andam junto a mim reabrindo-me para o mar.





Paragens andam junto a mim reabrindo-me para o mar.
Eu prefiro os gestos dos alucinados em plena quatro horas da tarde. Prefiro a coragem de ser à comodidade de se estar.
Convicto de que não regrido, cedo à brisa da estrada, e desvio um pouco de diversas cicatrizes, amparado pelo clima harmônico da natureza vespertina.
Paragens andam junto a mim reabrindo-me para o mar.
Convicto de que não regrido, dispo-me de desejos intocados, amparado pela delicadeza dos pingos fugidios de chuvas imortais presentes em meu caminho.
Paragens andam junto a mim reabrindo-me para o mar.
Deus torna-se minha mais perfeita criação, enquanto a tristeza se ramifica pelo ar.

Ivanilson Martins


quarta-feira, 27 de junho de 2012

Fraterno

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“Estamos aqui hoje para louvar ao senhor.”
Assim começara meu irmão em seu discurso, e eu que sempre tivera meus entraves com religião, estava ali nos últimos bancos da pequena capela na esquina de nossa rua. Rua humilde que também integrava o holl de meus silêncios. Não sei como nem porquê comecei a edificar meus ódios, mas aquela oração construiu algo de puro em minha imagem até ele. A importância de estar conduzindo algo para um Deus que, para ele, parecia tão possível. Senti certa intimidade com o significado de família. Nunca pensei sentir tanto orgulho por ele e sua família. E ele me chamava, à sua maneira – com a bíblia – para ir comer do bolo. Deixei fantasias e perfeições e admiti meu engajamento para amar, e, com muito talento, amei todos os que a ele miravam com respeito; amei a religiosidade por cerca-lo naquele momento e esqueci-me de qualquer primitivismo e ou alienação cercante em muros religiosos. Eu lamentei por não estar numa roupa mais elegante e por ter negligenciado suas dúvidas de Matemática, dez anos atrás. E a lágrima, ameaçadora durante toda minha vida, e, incutida em inúmeras raivas, enfim, despregou-se de minha casca humana, atingindo graus de espíritos, necessários para quem quer se conhecer. E foi esta presença de espírito que me fez desejar felicidades – quase acreditei nela. Mas não precisei de credulidades nesta hora, pois estar num âmbito desacreditado para mim, não me impediu de deixar qualquer solo e tocar emoções de infância.  
Talvez atingir a maturidade com repúdios de passados não seja verdade. Quando dei por mim estava de mãos postas e, de olhos fechados, não acompanhei a oração: acompanhei nossos passos de irmãos; seus olhar era o meu, e nossa mãe ao lado espraiava tudo que podia para que pudéssemos, finalmente, nos enxergar. As vozes dos hinos e os améns rodopiavam diante de mim. Não foi uma pessoa que nascera ali – foi uma vivificação exigindo descanso de uma família. E não por estar na igreja, mas Deus assistia, ali, a outras formas de nascimento, enquanto todos cantavam parabéns para meu sobrinho em seus três anos de idade.

Ivanilson Martins