sábado, 1 de junho de 2013

Eros para Heróis

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Veio chegando com malícia cobrindo “ISMOS”, colocou as barbas de molho na minha sopa e puxou meu pequeno fio exposto de fragilidade: sou crueza de sexualidade; expansão de felicidade; espírito em estado bruto. Universo em desencanto.
Iludido abri a mente e o corpo e de pelos eriçados joguei-me na cama como se fora mar. Meu quarto anestesiado despercebia marretadas nas paredes; janelas arregaçadas; rejuntes de cerâmicas separadas por longas estocadas; e telhas indo e vindo do céu a cada urro.  
Esgotamos todos os discos de rock da estante para abafar gritos, sussurros e gemidos de dor e prazer – tudo misturado sem coesão, sociologias ou catecismos.
Esgotamos todos os cremes lubrifica-dores dos armários para facilitar a entrada de partes desanatômicas.
Conectamos nossas veias e artérias com os canos da casa e as tubulações do quarteirão para passagem do gozo, até romper estruturas e cair como chuva sobre bocas e poros dos que ousam sair de guetos.
Ao descermos para nossos limites de pele, concreto, endereço e sociedade eu, ainda, era livre.
Ele: banhou-se, vestiu trajes de zumbi, pegou a bíblia e seguiu para o culto numa tentativa de livrar-se do estado de alma que nunca atingira.

Ivanilson Martins

sábado, 25 de maio de 2013

Rainha do Milho

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"o poeta não é um ser de luxo, ele não é uma excrescência ornamental da sociedade, é uma necessidade orgânica de uma sociedade, a sociedade precisa daquilo, daquela loucura, para respirar. é através da loucura dos poetas, da ruptura que eles representam, que a sociedade respira..."
Paulo Leminsky


Dedicada como uma flor quando quer se revelar abriu a saia e rodou conquistando grande espaço ao redor. Fora sucumbida pela vestimenta de Rainha do Milho e, embora, o reinado fosse de apenas trinta minutos de dança na quadrilha: sua majestade tomara-lhe outros espaços.
Cortejada pelo mais vistoso cavalheiro e respeitada por toda a palhoça fez digno tal momento de solista em meio a aplausos vindos de quaisquer mãos. Facilmente apaixonante as sensações que a enredavam: trono, respeito, luz.
Bailou entre triângulos, sanfonas e zabumbas com gestos delicados e passos autênticos – era belo o semblante imposto de mulher aos que a veem em outras épocas. Bandeirinhas multicoloridas empolgadas com o forró eram apenas figurativas diante do peito garbo e do olhar emoldurado por cultura, arte e alegria.
Terminadas as coreografias apertou com sofreguidão a cintura, pisou com o dobro de peso o salto, olhou fixamente o mundo em volta daquela festa junina, mas não pôde segurá-la por mais tempo.
E se eu me apaixonar por tal mundo? A resposta a tal pergunta viera com o apagar das luzes; a separação de mãos de rei e rainha do milho e o anúncio em alto-falante da próxima atração.
Sozinha foi se descompondo. Enquanto tirava os cílios, o enchimento do colo e a peruca – se sentia mais vigiada.
Caminhou aplaudido pelos súditos que ainda guardava em pensamento. E os mesmos aplausos: agora eram risos ignóbeis plantados em rostos eternamente destituídos de majestade.

Ivanilson Martins

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Paragens andam junto a mim reabrindo-me para o mar.





Paragens andam junto a mim reabrindo-me para o mar.
Eu prefiro os gestos dos alucinados em plena quatro horas da tarde. Prefiro a coragem de ser à comodidade de se estar.
Convicto de que não regrido, cedo à brisa da estrada, e desvio um pouco de diversas cicatrizes, amparado pelo clima harmônico da natureza vespertina.
Paragens andam junto a mim reabrindo-me para o mar.
Convicto de que não regrido, dispo-me de desejos intocados, amparado pela delicadeza dos pingos fugidios de chuvas imortais presentes em meu caminho.
Paragens andam junto a mim reabrindo-me para o mar.
Deus torna-se minha mais perfeita criação, enquanto a tristeza se ramifica pelo ar.

Ivanilson Martins