quarta-feira, 17 de junho de 2015

Arte

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Enquanto a grande massa, atada à elegância do salão, ocupava-se de explicá-la, coreografando sorrisos e cronometrando modos, levantes de colarinho e retoques de maquiagem, a Arte, solitária, procurava em algum timbre verdadeiramente desnudo, assentar-se.

Ivanilson Martins

terça-feira, 16 de junho de 2015

O corpo é uma festa!

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“O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa”.
(Eduardo Galeano)

Quero ir pro meu barraco e dar a buceta pro negão que me visita”. Gritou a velha louca ao cruzar a esquina. Digo “louca” não pelas palavras, lúcidas e instintivas, mas pelos gestos desordenados, pelo sorriso meio lunático, cabelos desgrenhados e pela vestimenta pútrida que usava.
E os olhares dos transeuntes – todos eles – voltaram-se para ela. Horrorizada, nossa sociedade tratou de tapar os ouvidos dos menores; muitos esboçaram risinhos de lado; mãos quase a agrediram por dizer com voz alta o proibido, o resguardado para fins de noite sob cobertas límpidas. As mulheres, em especial, tiveram pena dela. Ouviu-se de longe algo como: “Deus me livre”.
Por certo não se deve dizer coisas íntimas ao ar livre e em plena avenida lotada, e, dependendo do tom de voz, riso é normal. Afinal, quem ouve tal frase gritada no meio de uma avenida?
Frases como essa costumam chegar aos nossos ouvidos através de fones, em local bem discreto, com o dedo no stop, caso pés se aproximem; talvez vinda de bocas quentes, em casas apropriadas ou numa encenação, neste último, a plateia manter-se-á adequada à sua formação e usando termos como: arte, licença poética, instalação ou quaisquer outros politicamente corretos.
Fernando Pessoa fez o seguinte questionamento em um de seus poemas: “onde há gente no mundo?”. Falava dos seres que parecem perfeitos numa moldura de capacidade moral extrema. Lamento que muitos tenham vestido esse tom hipócrita de pele; esse sorriso de normalidade que me soa como atraso de vida, ademais de farsante e incoerente ao que se percebe no olhar, gestos e – principalmente – em atitudes escusas e imorais. Lamento que o horror na expressão de muitos ali tenha sido pelo conteúdo e não pela forma da frase. E que fazer sexo siga como algo sujo e escabroso. Lamento que eu continue censurando no outro o que eu não tenho coragem de fazer. Lamento que eu levante bandeiras, armas, discursos, propostas de leis, dogmas e religiões contra algo natural, prazeroso e eficaz quanto o sexo.
Dever-se-ia levantar-se contra sua maneira de oprimir: pedofilia, exploração sexual, violência sexual, homofobia etc. Bem como quaisquer outras formas de interferência negativa na intimidade do outro.
Naquela cidade, entre muitos passantes, havia uma velha louca e feliz por saber-se penetrada por um negão. Talvez, precisemos atingir o estado de loucura para afastar o excesso de culpa e se aconchegar na pele de um homem ou de uma mulher e suas derivações. Ser feliz será bem mais simples quando despejarmos de nós o excesso de lixo que se acumula e passarmos a conviver com nossas possibilidades de expansão espiritual – o corpo é um departamento importante a ser explorado nessa tarefa.   

Ivanilson Martins


sexta-feira, 12 de junho de 2015

Semeando eternidade

Édouard Manet


Segue o caminho de meu olhar.
Descola minha língua do palato.
Escolhe uma curva de meu corpo.
Abre meu peito.
Dá novo formato aos meus cabelos.
Molda meus gestos.
Amplia teus vocábulos no meu silêncio.
Me penetras sem obrigação de permanência.
Segura nosso tempo num orgasmo
E voa pelo quintal com novas asas.
Mas não queiras voltar
– estarei semeando eternidade em outro lugar.


Ivanilson Martins