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Subitamente me senti feliz! Essa sensação não me é totalmente estranha. Outras vezes me senti assim – de súbito –, mas agora foi felicidade mesmo. Não foi aquela perene alegria. Eu senti o peso da felicidade e tive medo. Medo de não ter com o que preencher aquele momento feliz. Cheguei até a desejar minha alegria de volta. Baixei a cabeça várias vezes; disse com pensamento alto que era sozinho; cantarolei meu repertório triste numa tentativa de testar a veracidade daquela felicidade, pois estando eu feliz, por certo não era mais triste, já que estes pólos sempre foram opostos na minha concepção. Minha falta de crença em minha repentina sensação e sua insistência em prosseguir perturbou-me.
- Será o final de algo? Felicidade às vezes pode significar fim.
- Talvez seja algo que apenas revelou-se só agora, mas que vivi no passado, algo que foi sendo alegria até então e numa ruptura fabulosa se completou.
- Mas, o que sei eu de felicidade? Talvez nem seja. Talvez seja apenas o sabor de chocolate ainda no paladar. O fato é que está aqui, ainda se manifestando, involuntariamente, no levantar dos meus braços e na onipotência de rei sob meus pés. Será isso um recomeço? E aquilo que chamava de “essência” onde está agora? E se realmente se foi, terá levado meus brilhos de melancolia? Minha fortuna revelada apenas em palavras? Pego rapidamente um papel. Preciso escrever...
Como assim: piqueniques com amigos; festa de aniversário; clubes, praias, teatros lotados. Que escrita é essa? Onde foram parar meus vazios? Não pode ser! Peguei dando-me conselhos de criar metas, definir objetivos. Cheguei a ver diversos eus olhando apenas para um foco numa harmonia assustadora. O descontrole habitual de meus dedos se resumiu ao trabalho mecânico e físico do corpo. Eu estava intranquilo com essa ideia de tais mudanças. E tão radicais, que apertei os dedos até alcançar a dor; visitei antigas recordações infelizes do tal amor, mas a felicidade parecia não diminuir, ao contrário parecia contagioso. O amor resolveu também me visitar naquela tarde – me vi completamente apaixonado por mim. Até as espinhas e demais imperfeiçoes que me afligiam de repente neutralizaram-se. O abandono, rancor e medo que, por ventura, ainda me afetavam na falta de amor converteram-se em maturidade, pelo menos foi o que senti ao sentar na calçada. Vi-me praticando tênis com a felicidade, eu de um lado a dar raquetadas de desventuras minhas numa tentativa de neutralizar tamanha felicidade e ela do outro rindo e crescendo, recrutando para meu lado paixão, paz e segurança. Notei meus eus descendo a ladeira de maneira simbólica e definitiva. Percebi quão importantes são eles para mim – minha identidade; meu endereço –, olhei para frente não soube o que fazer estava exatamente na encruzilhada do que é essência, do que é Ivan.
Ivanilson Martins

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