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Não me sinto incomodado quando vejo Lula, Reynaldo gianecchini, Hebe, Ana Maria Braga, etc. com suas cabeças raspadas dividindo com o Brasil suas dores e, após alguns meses, felizes por suas recuperações daquilo que amedronta muita gente – o câncer.
Fico incomodado quando cruzo o corredor da fundação Altino Ventura em PE e assisto a contra gosto crianças, adultos e idosos na iminência de perder suas visões por não ter como bancar exames simples. Incomoda-me a normalidade e pequeno poderio idiota dos atendentes de telefone do mesmo local em dizer que não há vagas. Seus oftalmologistas reinantes ao estamparem sobre os quatro cantos do hospital seu drible daquela condição ultraje dos pedintes por consulta – pobre do país dependente de medíocres diplomados – esse é o mesmo país que suga todos os anticorpos de dignidade humana e deixa sua população carente de cidadania.
Acompanhar a doença de celebridades (e toda patetice desta palavra) é – ou deveria ser – um motivo de avaliação popular: ver a mídia, tão destrutiva quanto qualquer ditador, armar lonas para humanizar o povo e depois fazê-lo aplaudir a recuperação de seus “heróis” é tão revoltante. Não pelo fato da cura – conquistada por altos investimentos bem distantes daquele corredor do Altino Ventura. Mas pelo proveito cruel tirado da alienação do povo que, na sua falta de criticidade não enxerga que por trás de uma Hebe-Camargo-de-cabeça-raspada existem milhares de brasileiros de pires na mão em filas de hospitais públicos. Se cada brasileiro diante de uma TV a sentir pena de tal dor se convertesse em um representante e aspirador de cidadania. Se...
Incomoda-me a tentativa insalubre que insistimos em edificar de esconder-se, não se sabe onde, problemas tão visíveis deste quase-continente-Brasil. Somos um país cativo em essência e temos o pior dos povos – aquele que só vai para rua pedir dinheiro; quando não, expor e inventar miséria perpetuando, muitas vezes, inconscientemente, um neocolonialismo interno, pois somos pobres por dentro criando “flores amarelas e medrosas”.
A cabeça raspada de famosos é efêmera, em sua maioria, dever-se-ia nesse país acabar com a negligência das que estão jogadas em corredores públicos – pessoas tão cidadãs e contribuintes quanto.
Ivanilson Martins

Um comentário:
Nêgo eu pensei e você escreveu. Concordo em gênero, número e grau.
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