domingo, 15 de fevereiro de 2015

Bloco de carnaval

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Achei que dançava. Meu corpo era mais um exposto dentro do mar de gente onde se encontrava perdida minha cidade. Mil pessoas passaram por minha pele. Mil peles roçaram na minha. Digitais nas minhas tatuagens. Vozes fragmentadas nos meus ouvidos. Um sorriso, lá longe, tentando se chegar. Confetes narrando poesia na frente dos meus olhos. Pés cansados esperando um ponto de chegada. Um sol imenso tentando atingir algo à sombra de todos nós. E uma alma intacta, com as mesmas valas de incêndios, com as mesmas pelancas de medo caindo da face: vazia e objetiva na margem de um rio infinito. É a minha!

Ivanilson Martins

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

FOI HOMOFOBIA!

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 Seu juiz, acabei de vir de uma biblioteca pública e, só porque eu estava de bermuda e chinelo, não me deixaram entrar.
Foi homofobia!
Essas regras públicas idiotas. Eu Fiquei tão irritado, que avancei um sinalzinho de nada, e uma guarda mal-encarada me aplicou uma multa.
Foi homofobia!
            Voltei, mas o horário no arquivo não estava reservado para mim, e, só por causa disso, não me deixaram entrar.
Foi homofobia!
Chamei a serviçal e pedi-lhe que reservasse outro, mas, essa disse que não havia. Chamei três ou quatro palavrõezinhos, e o guarda, puxando-me pelo braço, expulsou-me. Nunca me senti tão ultrajado, seu juiz.
Foi homofobia!
Como se não bastasse, um fusca e duas motocas chinfrins fechavam meu sedan, pareciam mancomunados. Essa gente parece que se materializa. Quando senti o primeiro pingo, entrei desesperado. Até tu São Pedro? homofóbico!
                                                    
Ivanilson Martins


terça-feira, 26 de novembro de 2013

O bicho


Paulo Henrique da favela da Samambaia nadando no canal do Arruda. (Gloogle imagem)
O bicho, meu deus, era um homem”. Como não relacionar esses versos com a foto tirada do Paulo Henrique e publicada no jornal do comércio: O menino de nove anos aparece esquecido no lixão do canal do Arruda, catando alumínio. Esquecido por diversas esferas da sociedade. O registro do fotógrafo Diego Nigro é mais um exemplo de como, infelizmente, o Brasil tem reproduzido na realidade o espanto do poeta, entretanto, não o suficiente para que haja uma definitiva cessação desse estado de miséria de grande parte da população; para que haja um engajamento realmente eficaz por parte do poder público; para que se cumpra os artigos do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).
Se a lei afirma ter a criança “primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias”, como se explica o abandono das nossas crianças e adolescentes? Qual a explicação para termos chegado a tal ponto na política do salve-se-quem-puder deixando a ermo, incapazes? Encaramos como importante apenas o que está sob nossas asas! Quanto ao resto – no sentido literal dessa palavra – nos comprometemos paulatinamente... Nossa revolta por imagens chocantes e cenas absurdas não é suficiente para nos mover da zona de conforto e agir responsavelmente com o futuro do outro. 
Enquanto Paulo Henrique não ameaçar meu clã, as dependências de minha casa, a educação de meus filhos, enfim, enquanto a degradação na qual vive não prejudicar diretamente meu bem-estar, não há por que torná-lo prioridade para mim, estruturar a escola e posto de saúde dos quais depende e dá-lhe noções de cidadania para que possa discernir atividades de bicho e de gente. 
A população acostumou-se a ter momentos como este: de comoção coletiva; de entusiasmo e empatia com os desfavorecidos, e estes por sua vez, a vestir a carapuça de necessitados, enquanto os muros que separam ricos e pobres nesse país permanecem. Certezas como: cadeia no Brasil é para pobre, a educação pública é uma instituição falida e saúde de qualidade só tem quem pode pagar seguem como argumentos para o ingresso no mundo do tráfico de drogas, explosão de caixas eletrônicos, fraude, prostituição, estelionato etc. Nos apoltronamos no subdesenvolvimento e banalizamos certas realidades encarando-as como fatalidade. Tal imobilismo tem se tornado característica de uma geração e aniquilando a possibilidade de uma postura realmente revolucionária. O garoto da favela da Samambaia é um dos inúmeros retratos terríveis do Brasil. Representa, talvez, o mais sério deles: a criança. 
À margem de uma Proposta de Emenda à Constituição que nos impõe regras por vinte anos, existem muitas lutas inacabadas e o desrespeito à infância é uma das mais urgentes. Para que meninos e meninas não venham a tornar-se “o homem” citado pelo poeta, deve existir uma mudança estrutural, passando pelo legislativo e pela cultura apregoada ao cotidiano do brasileiro do “não-é-comigo”. É preciso conceber-se como sociedade, ou seja, Paulo Henrique é o que sou e não o que me comoveu por uns instantes. Trata-se de restaurar nossa capacidade de interceder e estender a todos os brasileiros o conhecimento de seus direitos e deveres. 
Jaime Pinsky, historiador paulista, assevera que: “ser cidadão é ter direito à vida, à propriedade, à igualdade perante a lei: e, em resumo, ter direitos civis”. É, também, participar no destino da sociedade, ter direitos políticos. Ou seja, ser cidadão nos permite usufruir das facetas que a vida social nos apresenta e afastar “gente” da condição de “bicho”. 

Ivanilson Martins