segunda-feira, 29 de junho de 2015

Quando o inverno chegar...


Quando o inverno chegar, vai me encontrar dando pra um sábado; chupando toda a seiva bruta de um domingo;
Debruçado sobre o rastro deixado pelo outono
– em direção à suruba dos dias.

Quando o inverno chegar, com suas chuvas espaças e seu clima de panos grossos sobre a pele, vai me encontrar com uma camisa de vênus protegendo o nervo vivo das falanges da melancolia; das garras do silêncio impelindo meu espírito ao cansaço das folhas açoitadas por estacas de água.

E quando o inverno chegar querendo puxar-me versos, vai me encontrar deitado, extático, tentando escutar o vazio do corpo. Vou estar como uma bolha de sabão que guarda uma porção de nada até desaparecer.


Ivanilson Martins

domingo, 28 de junho de 2015

Este do espelho


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Olho-me ao espelho e sinto, à duras penas: há mais do lado de lá.
Há uma respiração ofegante;
Há lábios vermelhos;
Há uma estante com livros ao fundo;
Uma porta de saída;
Há uma réstia de brilho se escondendo num fundo de olho;
Há aqueles poemas bobos de infância saltando da memória e franzindo a pele entre as sobrancelhas: “num canto há um canto que canto com encanto”.
Ah, este do espelho é o reflexo do medo que me habita.
O medo de ser livre e sair por aquela porta e não mais voltar.

Ivanilson Martins



sábado, 27 de junho de 2015

Porquês

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Se tenho os músculos e as peles no lugar, por que não me olhas?
Se tenho desejos lícitos e vícios controlados, por que não te sentas ao meu lado?
Se mantenho os cotovelos rente à mesa e os verbos bem conjugados, por que desvias o corpo de meu alvo?
Se me movo com cuidado quando quero e distingo boas óperas quando as ouço, por que não são minhas as tuas manhãs?
Se me satisfaço com poucos tabletes de chocolate e as crianças mais me agradam que me aborrecem, por que ignoras meu entusiasmo?
Se o líquido que escorre de meu rosto, meus silêncios e até os meus medos podem ser convertidos em arte, por que não mergulhas em mim?
Se sou capaz de enxergar poesia no curto caminho do portão aos teus braços, por que não me amas?


Ivanilson Martins