quinta-feira, 8 de outubro de 2015

[E ri-se, ouvindo, ao longe, os passos da cuidadora Esmeralda].

Google imagem

– Pois é, Mel, comecei querendo um homem bonito na adolescência; acrescentei inteligência na juventude; quando adulta, percebi: honestidade também é importante! Na maturidade, bom humor; no casamento, achei estar tudo ajeitado; com a viuvez, voltei à lista; com a velhice, sai cortando itens. Hoje, bastaria ser homem para ganhar aval de entrada.
– Ai, dona Zu, mas isso não é problema somente da idade: eu mesma, há pouco tempo, tinha mania de escolher parceiros pelo pé, quanto mais limpo mais chance tinha comigo; hoje a crise está tão grande que tenho andado com um par de meias na bolsa. Qualquer coisa, digo que é fetiche.  
Ah, querida, se meus vizinhos garanhões aposentados de pornochanchadas não perigassem morrer em cima de mim, faria uma fila de bengalas na minha alcova e deixaria todas as minhas putas saírem. Velhas. Loucas. Livres. Porque eu não morro, não! Não por querer. Vou, mas vou arrastada, Mel. E vou tentando argumentar com a morte, essa dona sem rosto, sem pele, sem cheiro, sem critérios.

Ivanilson Martins


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Família

Google Imagem



“A família é formada por um homem e uma mulher, através do casamento ou da união estável... e ‘blá blá blá’...”.
Decisão recente da câmara dos deputados, parte integrante de nosso legislativo, cuja função é representar o povo, legislar sobre os assuntos de interesse nacional e fiscalizar a aplicação dos recursos públicos pelo Poder Executivo. Tal deliberação vai de encontro às atribuições dessa casa ante a nação brasileira, pois, qual o interesse de se definir o conceito de “família” se a intenção não for excluir as não encaixadas nesse premissa absurda, para não dizer religiosa? Cadê a noção de Estado Laico se, gradativamente, estamos sendo domados por uma política hierática.
Um conservadorismo velado e uma empatia de araque flutuam sobre nossas cabeças e de repente desabam, trazendo à tona mazelas antigas: nosso eterno desjeito com o direito do outro.
Essa discussão não é bobagem! Posso perder direitos cíveis se não compuser um quadrado patético na iminência de se tornar lei; posso ter minha cidadania comprometida, e pior, posso perder uma identidade conquistada.
Quero mesmo é ver os direitos sociais, infringidos diariamente no cotidiano do brasileiro, virarem agenda dos nossos [lugar reservado a boa educação] deputados e senadores; quero ver o ímpeto por mudança ascender das promessas de campanhas e se tornar realidade, afinal, representar o povo não é um favor que nos fazem, assim como conceituar família não deveria ser prioridade.   
Família é formada por pessoas! Ser homem ou ser mulher, agir como, atuar como... são questões flexíveis e questionáveis, por que ir na contramão do progresso, do respeito e da tolerância às escolhas do outro? Por que ao invés de ampliar a palavra “família” como fez de forma inteligente o comercial da Vitarella, esses 17 votos contra cinco querem reduzi-la? 
Luto por agravar o lado positivo do Brasil nas minhas atitudes, por não ratificar ideias destruidoras e opiniões pessimistas acerca de nossa longa condição de “país em desenvolvimento”, mas a verdade é que ainda estamos engatinhando em direção à nossa Revolução Francesa; nossa tríade (liberdade, igualdade e fraternidade) não se confirmou. A criança preterida pela consciência coletiva hoje é adulta, entrou na política partidária e governa para os seus – e seguimos encarando nossas guerras civis como fatalidade.
Mas acreditar no Brasil não me é uma opção é algo que eu mesmo me imponho, e componho, sim, a fila dos otários, que embora amordaçados, gritam em silêncio para acordar a nação; asseclas de uma ética sempre por chegar.
“Reconhecer um certo número de fatos novos indicativos da emergência de uma nova história. O primeiro desses fenômenos é a enorme mistura de povos, raças, culturas, gostos, em todos os continentes”. Santos, Milton. Por uma outra globalização. E acrescento, Milton, outro fato – o familiar.
Conceituar família? Tal atitude, para mim, será sempre algo excludente, leviano e pretensioso.
Ivanilson Martins


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Eu quero me aposentar!



Deus, depois de anos de serviços prestados ao mundo dos melancólicos; ao mundo dos infelizes e poéticos viventes, que se desviam das oportunidades para seguirem pássaros; daqueles mesmos, perdidos entre sons indecifráveis vindos de um imaginário pulsante; dos que passam horas olhando árvores e se apaixonam por rostos efêmeros no meio de uma multidão, mais efêmera ainda. Eu quero me aposentar! Não deste espaço exclusivamente meu, atelier interior onde crio meus labirintos e saio mais forte das dores que nem sabia: estavam no peito. Continuarei a acolher os olhares delicados dos cachorros que, volta e meia, abrigam-se na minha sombra – prometo. Por quê? Eu me abrigo nesses olhares também. Numa espécie de mutualismo, nos alimentamos da solidão do outro.
Quero aposentadoria, Deus, das horas vazias de tudo, aquelas cujas garras sangram minha alma até que saia uma gota de arte. Eu queria ser como aqueles artistas das revistas, cheios de risos e sem nenhuma conta em atraso, mas sou artista inferior, coberto de medos e futuros insertos. Eu atravesso a rua sem mãos estendidas do outro lado, e se me dou uma folga de mim, morro de medo de não levantar-me a tempo de me dar a mão – eu mesmo – como sempre foi. Há na minha esperança uma doença degenerativa e, quando ouso me apaixonar por alguém, meto os pés pelas mãos, pois sou entusiasta como o vento que conduz minhas letras.  
Eu quero, quero sim, quero muito me aposentar dessa incapacidade de me vincular ao mundo de fora; dessa abstração gotejada como água quente nos olhos; dessa insatisfação em simplesmente ser.
Deus, quero que segurem a minha mão com força, e continuem assim, mesmo quando minhas forças cederem; alguém que compre a briga com minha incompletude e responda quando eu disser – te amo!


Ivanilson Martins