sexta-feira, 22 de maio de 2015

Se perguntarem por mim...

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Se perguntarem por mim...
Estou dentro de um Fado, prestes a me tornar nascente.
Estou entre os versos falados, pensados, sentidos e escritos pela Emily Dickinson, movo-me como um balão entre cactos espinhosos no mundo de fora. Atravesso todas as almas que tenho e me inclino como um louco querendo voar.
Se perguntarem por mim...
Estou à margem do Rio Capibaribe, com os pés enterrados na lama, cavoucando lixos como se fossem pérolas.
Se perguntarem por mim...
Sou a Ana Flávia da esquina aniquilando hipocrisias.
Se perguntarem por mim...
Carrego telas vindas de um infinito silencioso e intenso.
E estou usando meu corpo como instrumento de plenitude, alteando microfones e engolindo solidão.
Dize isso... dize que há tempos tento livrar-me de mim.


Ivanilson Martins

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Sou pernas do pensamento...

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Eu não estou bem! Meu discurso se resume a lamentos, e essa busca por analogias tem sido a atitude menos danosa para me manter são. Descobri cedo algumas verdades e estas parecem me isolar. A vaidade é a primeira viúva do tempo, desatou-se de mim como as cores de uma tela exposta ao sol. Não há melhor estampa para o triste que o P/B. Minha solidão se emoldura num porta retrato digital, repetindo as mesmas imagens. Opcional? Apenas sua posição na estante. Ver a vida através da janela, na presença da brisa do ventilador, da música do vizinho, de uma casa vazia, de pensamentos sem contorno e de uma liberdade sem feições, transformou-se em algo banal. Não há ânimo para mudar de canal. Não há voz para gritar. Até o infinito da linguagem parece apagar-se em mim. Absorto, de lábios colados, cabelos em palha e pele contraída, forço uma camuflagem com a noite.
E nada disso se fará entendível quando apenas lido no olhar. A voz vacilante e espaçada, os gestos dispersos e intensos, a ênfase em determinadas passagens – e a personalidade de quem compartilha – deixa claro que não se trata de algo meramente escrito.

Sou pernas do pensamento, tenho sempre a mesma ânsia desabrochando no espírito. O tempo me auxilia na ilusão de ser livre.
Ivanilson Martins 

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Eu acredito num mundo que não se vê!

Renoir

Esse texto num tem nada com crença ou ideologia, num tira nada de ninguém, nem acrescenta – é apenas um poema.
Nem digo Deus, mas quem não acredita em um algo maior, sei lá, um mundo invisível – não parou algumas vezes para entender suas formas materiais na terra e no universo.
As frutas, as verduras, hortaliças e grãos, são as representações mais próximas que temos desse algo.
E temos os animais, da pequena formiga à gigantesca baleia. Como o texto é meu, quero citar alguns preferidos: cachorro, tartaruga, coelho, pato, arara, golfinho, pinguim, carneiro e porco.
Há a flora, gente, como alguém pode viver sem perceber nas árvores e flores, pelo menos uma vez, seu lado maior, sua forma discreta de tocar-nos. Eu que não ouso passar por um girassol sem, de alguma forma, agradecer por enxergar e sentir aquilo.
Respeito e lamento aos que não podem, de alguma forma, disfrutar disso, mas os mares e os rios só podem ser de Deus. Não é só ciência aquilo não – é belo demais. É meu ansiolítico.
E a água acabando com a sede; o vento desabando sobre nosso calor; os risos das crianças, verdadeiras reservas de humanidade e inocência – pego a maior briga por elas.
Num tenho a menor ideia de por que resolvi escrever isso agora, se por natal, ano novo, sei lá. Saiu como uma necessidade, como saem-me os poemas.
Desculpa qualquer coisa, mas: eu acredito num mundo que não se vê!
Ivanilson Martins